domingo, novembro 23, 2008

Ponte dos milagres (VI)

Tentei convencer os juízes da inocência desta mulher simples, nascida numa aldeia do sul, fruto de um mundo em que as soluções se esgotam depressa como areia a cair das mãos. Tentei mostrar-lhes como é possível ir ao encontro de um milagre e acreditar de facto que ele existiu, mesmo que isso de todo nos pareça impossível. Mas ela era também uma mulher esperta, capaz e despachada, pelo que não podia nem queria marcá-la com um rótulo que tornaria a sua vida uma outra coisa. Sim, se o mundo se podia dividir em dois, ela era imputável.

Nunca, por mais casos que defenda em tribunal, me posso esquecer dos seus olhos meigos como mel, da sua voz dizendo:
Aconteceu percebe?! Pela manhã o desconhecido apareceu na ponte da Mizarela, apareceu logo com a criança, não me lembro do rosto dele, trazia um pano a cobri-lo. Debaixo desse pano preto, muito comprido, trazia o bebé. Era rosado, muito bonito, igual ao melhor dos meus sonhos. E deu-mo, simplesmente passou-o para os meus braços sem uma palavra.

Fez um silêncio, e depois, espantada com o que ela própria tinha descoberto, disse:
Só se esse desconhecido era o próprio Diabo, e como eu aceitei a criança dos seus braços, cometi o maior dos pecados e por isso tenho de ser julgada.

E lembro como nessa altura o juiz baixou a cabeça, passou a mão pelos olhos, e pareceu desesperar com a impossibilidade de comunicar com esta mulher.
~CC~

Jogo de Inverno

A tua mão desliza devagar para fora dos meus dedos, no último dedo eu agarro-a e ela enrola-se na minha. Depois és tu a fazer o mesmo. É um jogo de Inverno, e lutamos ambos contra o frio que teima em competir connosco.
~CC~

quinta-feira, novembro 20, 2008

Pela poesia



Enquanto a dita maior e melhor livraria do país fecha as portas, há outras ideias pequeninas a vingar. Vejam esta: publicar poesia a partir da receita de alfarroba.


~CC~

quarta-feira, novembro 19, 2008

Ponte dos milagres (V)



É como já vos disse, nasci numa aldeia entre o Alentejo e o Algarve, num lugar do qual nunca desejei sair. O meu professor do 6º ano dizia para estudarmos porque só assim poderíamos ir para a cidade e conquistar novos empregos, novos ofícios. Eu não queria, gostava do cheiro da cal nas casas, do sol a debruar a soleira da porta, das sardinheiras a espreitar das janelas e dos quintais. Gostava de ir aos figos pelos campos, de deixar a roupa a secar no estendal do quintal, de dar milho às galinhas, de ajudar a mãe a fazer os queijos. Já mais velha, chegavam-me os bailes com as festas dos santos, o café central, as excursões que a Filarmónica organizava, as tardes de praia conseguidas à boleia na mota de um ou num carro velhote de outro.


Eu não queria saber de outro mundo além da minha aldeia. O único lugar que despertou o meu interessou foi mesmo a ponte da Mizarela. Contei primeiro à minha melhor amiga, uma mulher casada como eu, mas já com dois filhos. Ela disse-me que se fosse ela, também iria, que devemos tentar tudo para realizar os nossos sonhos. Já o meu marido fez tudo para me fazer desistir da ideia, até não me poder ouvir mais falar na possibilidade do milagre. Foi depois do jantar, numa noite especialmente fria, em que de tão triste eu tinha ficado parada no sofá, sem sequer me levantar para acender a lareira. Dormitava enrolada numa manta, quando ele se chegou a mim e disse: Quando chegar a Primavera eu levo-te lá.

~CC~

terça-feira, novembro 18, 2008

Perdidos e achados



As pessoas que eu perdi sem que tivesse escolhido perdê-las. Ficaram lá atrás, situadas em cenários com voz, cheiro, paisagem. Pergunto porque é que a vida as levou para longe do meu presente quando havia entre nós um rio de palavras e silêncios coloridos, tantos modos de nos dizer...Por vezes luto contra essa perca, vou fazendo alguns telefonemas ou enviando mails, até que o tempo me vence e o espaço entre cada comunicação se torna maior. É como se os caminhos se tivessem desviado de forma inevitável, destinos que se perderam. Aceito essas ausências sem mágoa, mas de quando em quando elas tornam-se tristes, como se as pessoas ausentes fossem sombras que me acompanham e que de repente tomam forma.


Hoje foi assim com a sms dela, devia ter ficado alegre por saber que está bem e a fazer teatro, coisa que sempre desejou. Devia ter ficado feliz, mesmo sabendo que o que escreveu a mim é o mesmo que escreveu a todas as pessoas que constam da sua lista de endereços. Mas ela deixou de ser sombra e tomou forma de carne e osso e voz. E vi-me e via-a na nossa juventude e transição para a vida adulta, pensei nas tardes, nas noites, nas manhãs em que acordámos juntas em tantos lugares. Lembro-me de pensar que as nossas crianças cresceriam juntas num sítio no campo, perto do mar e de muitos malmequeres. Como é que a vida desfaz amizades fortes, alimentadas de tanto sonho, de tanta ternura? Mesmo com o telefone na mão, sabemos que não podemos voltar, perdemos a intimidade. O que nos resta é talvez um café, algumas palavras de circunstância a conferir se estamos bem, o que resta do brilho antigo deixado num breve sorriso.

E pensamos e dizemos: Adeus, até á próxima. Mas nem sequer sabemos se a próxima existirá.


~CC~

segunda-feira, novembro 17, 2008

Ponte dos milagres (IV)

A lenda da ponte da Mizarela é simples. A mulher que não engravida ou que já grávida viva em sérias dificuldades deve pernoitar nesta ponte. Assim que a manhã espreitar, ela deve esperar o primeiro caminhante que passe. Deve chamar por ele e pedir-lhe que jogue com a ajuda de uma corda um vaso que deve regressar cheio de água do rio rabagão. Com essa água, o viajante procede ao baptismo da criança (ou da sua esperança) no ventre da futura mãe. É muito importante o contacto da água com a pele, pelo que a mulher deve afastar a roupa que a cobre ou deve levar vestes em que abriu previamente um orifício. Deve ser dita a reza condizente, pela qual todos os rapazes nascidos deste ritual se chamarão Gervásios e as raparigas Senhorinhas.

Quando esta mulher morena e bonita, filha de um pai não comunista e não crente, na casa dos 30 anos, me contou esta história, confesso que lhe fiz uma série de perguntas nascidas da minha racionalidade de advogada. Como é que hoje em dia se acredita que há viadantes a passar no começo da manhã em lugares tão inóspitos como este? Porque é que esta água é milagrosa e não outra qualquer? Como é que uma água sobre a pele influencia a gestação? Mas sobretudo, como é que uma mulher de hoje acredita numa lenda que parece ter sido criada em plena idade média, ou mesmo antes?

Esta mulher da ponte da Mizarela, cuja voz já ouviram na primeira pessoa, na situação em que está actualmente não tem revistas nem jornais à mão. Por isso não me respondeu que Nicole Kidman, actriz bem sucedida de Hollywodd, atribuiu recentemente a sua gravidez a uma cascata milagrosa na Austrália. Mas eu coleccionei estes e outros artigos com estas histórias, e mesmo sem entender, respeitei estas mulheres.
~CC~

domingo, novembro 16, 2008

Um passeio no Outono




Pelos passos da manhã me levei e te levei comigo no caminho do Outono junto ao mar.

Em cada fotografia de árvore retratamos o que temos em comum: o olhar mudo e cumplice deitado às formas de seiva, água e húmus.

~CC~

sexta-feira, novembro 14, 2008

Ponte dos milagres (III)

Eu morava longe da ponte da Mizarela, numa aldeia pequenina perto do mar, branca de cal como são os lugares do sul. Na minha casa, o meu pai tinha deitado fora todos os cristos e rosários que a minha mãe tinha trazido para o casamento. Cá em casa nada de rezas nem mézinhas, essas crendices que só fazem mal ao povo. A nossa luta é contra os patrões, mais nada. Da sua intolerância mas também da sua força tinha nascido eu, herdeira de esperanças que nunca concretizei. Oiço ainda a sua voz forte, os seus olhos sempre duros, a pele tisnada do sol do campo: tens de ir à escola, tens de estudar.

Tudo me interessava mais que a escola, lugar que deixava por qualquer passeio para apanhar azedas, por qualquer pescaria na ribeira, por uma ajuda na queijaria, por uma tarde a ouvir música na filarmónica. A escola aborrecia-me e a vida divertia-me, era uma miúda aluada, distraída, que tinha tanto sono depois do almoço que a minha colega do lado tinha por missão me abanar para eu não deitar a cabeça no tampo da mesa. O meu pai não sabia que fazer de mim, e ocupado com a luta política, não tivera tempo para mais filhos. Era eu a única e ainda por cima tão incapaz que não só desistira cedo da escola e casara mal feitos os vinte, como não lhe dava netos.

Como podia esquecer-me da lengalenga que a velhota me fizera anotar no papel: escreve minha filha, se sabes escrever, que eu não sei. Com o meu 6º ano de escola eu ainda era capaz de deixar no papel aquelas palavras que me acompanhariam daí em diante.

"Eu te baptizo criatura de Deus, pelo poder de Deus, e da Virgem Maria. Se for rapaz, será 'Gervás';se for rapariga, será Senhorinha. Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,um Padre-Nosso e uma Avé-Maria. Eu te baptizocriatura de Deus, Pelo poder de Deus, e da Virgem Maria."

Como faria eu para ir ao Minho, junto ao rio Rabagão?

~CC~

Os caçadores de planetas


Pesados e redondos, adornados de poeiras vermelhas, afastados por milhares de anos luz, chegam pelas mãos dos caçadores de planetas, rasgos de mistério em pleno universo.

Pudesse eu nascer de novo, e estaria esta profissão escolhida logo no berço.

~CC~

quarta-feira, novembro 12, 2008

Ponte dos milagres (II)



Era uma ponte construída pelas mãos do próprio Diabo, só ele poderia incliná-la assim por cima das pedras. Mais tarde, muito mais tarde vim a saber o quanto isto era verdade, mas na altura só pensava no que a velhota me tinha dito, na ideia de trazer deste lugar uma criança abençoada pelas próprias águas. A minha história começa e termina neste lugar.
~CC~

segunda-feira, novembro 10, 2008

Ponte dos milagres (I)

Esta é a minha história, a de uma mulher que aguarda há dez anos por um filho que não chega. Na minha aldeia não há nenhuma mulher como eu. Espreito a corda de roupa da minha vizinha, onde há em todas as manhãs de sol o espelho dos seus meninos na roupa molhada. As mulheres dizem baixinho quando eu passo: coitada, tão jeitosa, e nada!

Já rezei a todos os santos que conhecia e a santas também. Cansei-me de beber chás de todas as cores. Já deitei de tudo na comida do meu homem. Depois convenci-me e fui ao médico lá na cidade, que me olhou por dentro e por fora à procura das causas para o meu ventre infértil. Disse-me que ia demorar a encontrar as respostas e eu tenho pressa, quero ter os meus filhos antes dos trinta, depois serei já mulher madura.

Até que, já vai fazer um ano, uma velha quase sem dentes parou ao pé de mim com o seu cajado de nogueira e disse-me: porque não vais à ponte dos milagres?! Agarrei-a pela manga do seu vestido preto já coçado, obrigando-a a contar-me a história toda.

E foi assim que conheci a lenda da ponte da Mizarela.
~CC~

domingo, novembro 09, 2008

Profissão professor



Oiço-os de um e do outro lado falar de uma vida que é também a minha. Vejo o rosto tenso e duro da Ministra da Educação, de certa forma há um desconsolo profundo nela. Vejo os rostos vitoriosos de quem desce a avenida unido numa causa comum, agora parecem felizes, mas conheço bem o cansaço que trazem acumulado. Um cansaço maior e além deste modelo de avaliação. É a escola, é o seu modelo de ser escola que já rebenta pelas costuras. Era essa a luta que gostava mesmo de travar: uma outra escola.

Vejo como na vida me tem sido sempre tão difícil fazer estas escolhas, estar num ou no outro lado da fronteira. Compreendo as razões de um e do outro lado e isso torna-me vulnerável, presa de um e do outro lado. Lembro as muitas situações em que me encostaram à parede, obrigando-me a uma escolha impossível. Fiquei sozinha, sou sozinha de certo modo, creio que o serei sempre. Em muitas situações, nunca poderei estar inequivocamente com os vencidos ou com os vencedores. Creio que os professores deveriam gritar na rua que querem ser avaliados. Esta é a mensagem principal, a outra é que querem um modelo de avaliação alternativo a este.

Eu gostava de ter sido avaliada como professora nas várias dimensões em que exerço a minha profissão, desde a sala de aula, às propostas e projectos, à relação e inserção nesta comunidade onde a minha escola se insere. Creio que se tivesse sido avaliada, não estaria na péssima situação em que hoje estou. Nunca, ou quase nunca, as competências que temos e as que conquistamos foram o essencial da avaliação na profissão que exercemos e essa é uma das tragédias portuguesas.

Grito portanto na rua que sou a favor da avaliação e que não a podemos suspender, nem adiar. Mas grito também contra alguns dos erros que estão a ser cometidos, desde logo por essa divisão absurda entre os professores titulares e não titulares, designação do mais infeliz que conheço. Não estou por ora na fileira dos que serão avaliados pois a avaliação do exercício da profissão no ensino superior não é para já, mas virá também.

Sublinho que adoro esta profissão, creio mesmo que a maior parte de nós que a temos, gosta muito dela. E é nisso que a ministra falha e era essencial que acertasse: desde sempre que lhe falta reconhecer o valor de quem todos os dias entra nas salas de aula com prazer.

~CC~

quinta-feira, novembro 06, 2008

Ausências e errâncias (VIII)

É hoje o dia do baptizado de Carol e André, os meus dois filhos, com diferença de apenas um ano um do outro. A igrejinha da Candosa está bonita, teve uma pintura nova e enchi-a de flores do campo que eu própria fui apanhar para os lados do Cabril. E estamos na Primavera, está um dia limpo e fresco.

Discuti muito com o padre e o meu único verdadeiro amor o baptismo destas crianças, virando ele a cara e desviando o olhar cada vez que eu lhe dizia que se ele os baptizasse seriam também um pouco filhos dele, os filhos que não tinham nascido do nosso amor. E quando ele me responde não há o nosso amor, ele percebe o quanto mente a si próprio. Durante estes cinco anos em que não voltei, escrevemos regularmente um a outro uma carta por mês. Cartas à moda antiga que o meu amor é um homem do mundo colado às tradições da sua aldeia. Inquieta-vos que lhe chame meu amor? Não é simplesmente como os outros, mas ele é a ligação mais forte que eu tenho a outro ser humano. O fascínio que tenho por este homem e o desejo que sinto por ele já são parte de mim, são o meu sangue.

Sim, é verdade que tive estes dois meninos loiros, fruto de uma grande amizade e de um respeito enorme pelo Peter, meu colega cientista. Nasceram lá longe, nos dias frios e chuvosos de Londres quando a mão dele era tudo o que me podia roubar à tristeza. Talvez o ame também, um outro tipo de amor, uma aragem fresca e doce como a que me chega hoje ao olhar o rio.

Daqui a pouco ele entrará nesta igreja, os seus olhos tão negros e brilhantes, serão mais uma vez o lume que nunca esquecerei. O amor, o amor é tudo isto, o que temos e o que nunca teremos, o que nos corre na pele e o que não correu nem nunca correrá.

Quando a cerimónia acabar, a senhora da Candosa estará sorridente, o seu padre nunca a deixará, e ganhará por momentos mais um menino e uma menina para enrolar no seu manto protector.

Eu estou feliz.

Fim
~CC~

terça-feira, novembro 04, 2008

I have a dream!


Sonhei que o Obama tinha ganho as eleições nos Estados Unidos.

Sonhei mais, sonhei que o Obama, por ganhar as eleições nos Estados Unidos, tinha começado a ser mais corajoso. Sonhei que tinha recusado a benção de qualquer religião, virado a cara ao lobby do Petróleo, tinha finalmente assinado o protocolo de Quioto e aceite que os seus cidadãos podem ser julgados pelo Tribunal Internacional dos Direitos Humanos.

Sonhei mais e mais, sonhei que ele tinha desmantelado os seus lugares encapotados de guerra nos quatro cantos do mundo, e que tinha dito que de ora em diante as suas tropas só agiriam na cena internacional integradas nas forças de Paz da ONU.

Sonhei que ele não dormia a pensar nos caminhos possíveis para resolver o conflito entre Hutsis e Tutsis que cruza vários países de África e agora assola o Congo. Sonhei que ele tinha dito "I Have a Dream" e tinha explicado que esse sonho era o de um mundo realmente melhor, pelo qual evidentemente não poderia lutar sozinho, sonhei que tinha dito que de alguma forma contava connosco.

~CC~

segunda-feira, novembro 03, 2008

Noites com silêncio


O silêncio é só esta noite espessa onde as horas passam velozes, em contra relógio com as muitas tarefas sempre atrasadas.

Há em cada noite de silêncio um semanário sem leitura que sobrou do fim de semana, um livro na estante a piscar-me o olho, um monte sempre crescente de roupa para passar, pensamentos persistentes à volta de alguns medos que crescem como se fossem a sombra da crise.

Há no silêncio da noite sonhos permanentes de passeios, de viagens. Estou já perto de Sevilha e a caminho das termas de Budapeste.

Há em cada silêncio de cada noite a saudade de um lugar amado, um cheiro ou um sabor que vem de um tempo já passado. São as gambas de Benguela, o azul claro do Índico, o sol deitado no final da tarde num pedacinho da ria formosa.

Às vezes o silêncio da noite tem o nome da tua ausência e sabe à tristeza de uma boca sem beijos.

~CC~

sábado, novembro 01, 2008

Noites com música

Leaders, Seixal Jazz 2008

Do palco para nós, a alegria a transbordar em música.
~CC~

sexta-feira, outubro 31, 2008

Ausências e errâncias (VII)

Várzea, Verão 2007


Quantas vezes precisamos para saber de vez que alguém não nos quer? É verdade que assisti ao seu abraço com a religião católica e que nunca me pareceu que pudesse haver retorno, mas precisei de todo este tempo, quase dez anos. Mantive o meu abraço quente à espera dele. Todos os meus envolvimentos neste anos foram pontuados pela ausência de esperança e de calor que neles depositei. Em sonhos eu era a Senhora da Candosa, montada no burro, capaz de abrir e fechar desfiladeiros com um olhar, dona de um encanto, de uma luz tão grande que Deus ao pé de mim era só uma sombra. Imaginava-o a acordar comigo em cada manhã, com aqueles seus olhos castanhos tão claros como mel e aquela paz que o habitava desde sempre a entornar-se também para dentro de mim. Imaginava que a fusão dos nossos dois corpos doces e macios traria à terra dos nossos pais pelo menos uma menina traquina, com duas tranças loiras e um rapazito de ar grave, a fazer perguntas sobre as razões da nossa existência.


Nada foi assim, eu perguntei pelo seu amor uma vez e duas e três e só na terceira chorei. Quando as lágrimas finalmente tomaram forma, eu pude perceber que a vida que eu tinha pensado um dia ter, não existiria nunca.


E quando parti para Londres era já uma outra pessoa, um outro destino de mim.


~CC~

terça-feira, outubro 28, 2008

Beleza (II)

Uma cor na camisola que rima em excelência com o olhar. Um sorriso aberto e limpo de quem procura dias claros. Uma pequena saliência na pele que parece ser saborosa. O modo como as palavras se pronunciam. O recorte largo dos gestos na companhia da fala. O andar de navio vagoroso, mar manso. O sal, em dose quase igual ao açucar. O saber sem arrogância de quem olhou o mundo em múltiplos espelhos. Uma lágrima agarrada nas pregas do tempo. Os livros lidos sem alarde, tornados vida interior. Um abraço pronto a sair a qualquer momento, quente ainda. Um desejo de viagem preso nos sonhos. O mundo todo para aprender.

É assim para mim a beleza, feita de coisas tão pequenas e tão imensas.
~CC~

segunda-feira, outubro 27, 2008

Ausências e errâncias (VI)

Beira interior, 2007


-Diz-me, alguma vez desejaste uma mulher?
- Talvez sim, mas já não me lembro.
- Como pudeste esquecer? Como se anula essa parte do nosso ser?
- Não anulas, simplesmente não lhe dás espaço. Repara, é um prazer que não conheço, por isso não posso sentir saudade, só há saudade do que conhecemos e amamos.
-Não desconheces que o celibato não é uma regra de todas as religiões, mesmo das monoteístas.
- Claro que sei isso.
- Então porque aceitas? Porque não te mexes para acabar com isso.
- Porque não acho uma coisa errada, não acho que seja o nosso maior problema.
- Qual é o sentido disso, não consigo encontrar.
- O sentido de uma missão que ocupa muito espaço, toda a nossa disponibilidade. Quantos cientistas não fizeram o mesmo com a sua vida? E muitos que não o fizeram, se calhar deviam.
- Como?! Nós conseguimos equilibrar as coisas, os cientistas já não são ratos de laboratório.
- Alguns são, e outros tentam ter família mas não lhe dão atenção, acho pior esse engano.
- Não é saudável, todas as partes no nosso ser são importantes, devem estar em equilíbrio.
- Pois eu acho essa tua visão muito higiénica e normativa, o equilíbrio é uma coisa muito pessoal.
- Rejeito a tua renúncia.
- Porque não percebes que é uma escolha, não uma renúncia.
- Não é uma escolha tua, é a escolha que a tua religião fez por ti.
- Mas se eu escolhi essa religião, tornou-se uma escolha minha.
- E os casos, todos os casos de padres que não cumprem essa regra? Que o fazem às escondidas?
O que dizes a isso?


~CC~

domingo, outubro 26, 2008

Varanda ao sul

Faro, 2008

Onde o olhar encontra o branco que resta intacto e se aquece no azul da ria.

~CC~


quinta-feira, outubro 23, 2008

Beleza (I)

Aos catorze sabia o que era a beleza masculina, apaixonei-me pelo rapaz mais bonito e desejado da escola e consegui namorar com ele uns três meses. Um êxito acompanhado pela angústia dos olhares permanentes sobre o objecto amado. Não sei se todas as pessoas deslumbrantemente belas precisam de público, mas aquele vivia disso. Depois a vida deu uma volta tão grande e depois outra e mais outra e perdi todos os padrões, nunca mais foi contemplada com a inveja das amigas nem com os olhares de admiração das mulheres pelo homem que me dava a mão. Só pelo silêncio das mulheres é que consigo saber que os meus homens não devem ter sido, não devem ser homens muito bonitos.

Recentemente terminei uma acção de formação, quase só mulheres, mas havia um homem. Achei-o efectivamente bonito quando o vi na primeira sessão de trabalho, mas depressa me esqueci dele. Estive aliás convencida que ele tinha faltado muitas vezes e por isso fui confirmar a folha de presenças, para meu espanto tinha estado em todas as sessões. Por me parecer quase impossível fui confirmar com alguém de confiança, que me sublinhou a palavra todas, ele tinha estado sempre presente. O homem, sem chama nenhuma, tinha uma beleza que morria no quotidiando, apagava-se no vazio.
Agora a publicidade televisiva de uma marca de automóveis, vejo uma e outra vez e não percebo a publicidade, é a minha filha que me ajuda, que explica. O homem que a mulher do anúncio escolhe é o mais feio, mas tem o tal automóvel, o tal que é barato mas muito charmoso. Ora eu acho que ela fez a melhor escolha em tudo, no autómovel e no homem, acho-o o mais bonito dos três que ela podia escolher. A minha filha ri muito, diz que não, que ele não é efectivamente o mais bonito, que é até feio. E rimos as duas quando lhe digo: e além de ser bonito, diz que não lava a loiça, mas aspira...não está mal, até porque as máquinas já vão lavando a loiça mas máquinas de aspirar ainda não sei se há.

Já é tempo de dizer que para se ser bonito é mesmo preciso o que está dentro, até porque mais de meio mundo anda a dizer o contrário.
~CC~

Ausências e errâncias (V)

É verdade, apaixonei-me irremediavelmente por este rapaz naquela noite de chuva, ou melhor talvez antes, talvez muito antes. Sei que agora é padre, sei que pensam que os jovens já não escolhem esse futuro para eles e que o meu drama só poderia localizar-se no passado e habitar um romance de um Camilo ou de um Eça.

São poucos, é verdade, mas se repararem bem, há jovens padres. E o meu não foi para o seminário aos 10 anos, no final da escola primária, por ser muito inteligente e os pais não terem como dar continuidade aos seus estudos. O meu padre teve todas as hipóteses para escolher outro futuro, era bonito, comunicativo, tinha bons resultados em praticamente todas as matérias escolares. No entanto sempre morou nele alguma tristeza, por vezes um silêncio, outras mesmo ausência. Foi ainda jovem que começou as suas missões inserido numa organização católica e na altura ainda não afirmava esta sua vocação, era apenas a vontade de estar nos lugares do mundo onde, dizia ele, a miséria é tão grande que é difícil preservar a condição humana. Foi depois da sua missão no Libano que ele tomou a decisão de ser padre católico, veio de lá transformado, uma sombra de si próprio. Raramente fala do que viu ou viveu nestas suas missões e continua a fazê-las com regularidade, mesmo agora depois de ter assumido de vez a paróquia da Várzea. Não compreendo também porque não escolheu outro lugar, ele que tanto gosta de errância.


Quando lhe perguntei porque voltou aqui, respondeu com aquele sorriso terno: foi aqui que me encontrei com a Senhora da Candosa, foi aqui que aprendi a respeitar tudo o que não compreendo inteiramente, é aqui que volto a ter paz. E então eu perguntei-lhe se queria que lhe explicasse outra vez que "pelo desfiladeiro da Candosa atravessa uma "linha" de "quartzito", uma das mais duras pedras existentes – mais dura que o granito..." e que todo o mistério tem uma tradução clara na geologia, na física e na química. E ele sorriu novamente e disse: não, não preciso que me expliques novamente.
~CC~



terça-feira, outubro 21, 2008

Ausências e errâncias (IV)



São minhas as conversas com o jovem padre e com a amiga Isabel. O meu nome é Josefa e estou prestes a fazer 27 anos. Nasci numa várzea no interior deste país, lugar fértil onde tudo nasce e o rio corre. Cresci a furar os campos de milho alto, sabendo que a vitória era chegar ao outro lado sem me perder. Tinha uma enorme paixão pelo interior da matéria, sonhava com células como as minhas colegas sonhavam com os grupos da moda. Recebi da minha aldeia todo o incentivo que possam imaginar para uma carreira bem sucedida. Fui primeiro a melhor aluna da escola de pedra da primeira infância e repeti esta dose de êxito na vila e na cidade. Toda a aldeia foi comigo quando me mudei para a faculdade na capital e me escreveu cartas quando fui para Londres.

Como é que vos posso explicar este sentimento de ser maior do que eu, de ser o orgulho da terra, dos meus pais explicarem demoradamente no café da aldeia qual a natureza dos prémios que aqui e ali eu ganhava e de se fazerem brindes depois da missa "à menina Zéfinha que é de todas a melhor das nossas meninas". Eu não sou eu, sou a vingança de toda este gente que nunca saiu daqui a quase parte nenhuma, sou todas as meninas que casaram cedo e não puderam continuar os estudos, sou todos os rapazes que começaram cedo a lidar com o tractor e a podar as vinhas e não fizeram mais nada a não ser seguir o destino traçado, sou todas as velhotas que nunca aprenderam a ler. Carrego nos meus ombros toda a alegria de ter sido o seu orgulho e a imensa tristeza de não poder ter sido tudo o que eles foram e são. Não sei fazer marmelada, não sei calcular a olho nu a profundidade a que a semente deve ficar, não sei pegar numa agulha, não sei ter um bebé no colo e embalá-lo, não sei rezar.

E quando eles me abraçam e me chamam menina Zéfinha, eu não sei retribuir o afecto com o mesmo calor e creio que é isso o que me traz maior dor. Eu perdi-me deles mas eles não se perderam de mim, é como se tivessem ficado aqui à espera de todos nós que partimos, mesmo os que eram tão jovens como eu ficaram à espera.


E eu volto sempre à procura de mim, volto sempre que me perco e não me encontro, volto quando o meu coração parece que vai parar de bater tão devagar.


~CC~


domingo, outubro 19, 2008

O grande lago

Alqueva, Outubro de 2008


Acrescentei uma estrela à constelação de momentos felizes. Acrescentei uma estrela à constelação de momentos tristes. Acrescentei várias estrelas nos meus olhos tristes-felizes, coração viajando por todos estes sentimentos na vertigem vagorosa do barco deslizando em tanta água nova, água cheia de histórias por criar. As aldeias e as pessoas sempre estiveram ali, o grande lago não. O novo e o antigo parecem não se encontrar por ora, mas vi muito pouco para além das águas.

Estrelas felizes as meninas tomando banho no grande lago. Estrelas tristes no homem do acordeão tão desfasado no restaurante neo-moderno dentro da aldeia triste, estrela de seu nome. Estrelas zangadas no teu olhar, por vezes fechado num mundo só teu, sem pontes para nós. Estrelas a brilhar no aconchego do teu abraço, em dose dupla de ternura para vencer a crónica falta de ar, desta vez derrotada em toda a linha. Faz-me feliz derrotá-la.

Um estrela feita rosa vermelha do campo riu-se para mim quando abri a mala, já meio desfeita mas com cheiro intacto. Esperança cheiro em momentos felizes.

~CC~


Ausências e errâncias(III)

- Mas diz-me, antes de ele ser padre, foram namorados?
- Nunca fomos namorados, acho que ele nunca teve uma namorada. Mas aconteceu qualquer coisa sim.
-Qualquer coisa que nunca esqueceste...
- Chovia muito nesse crepúsculo de Outono e sem queremos afastámo-nos muito da aldeia, movidos por uma estranha energia que nos levava a querer andar mais e mais. Perto do Cabriz, já encharcados, procurámos o moinho velho. Quando somos novos nunca temos frio e raramente temos medo, de modo que tudo aquilo nos divertia. Sei que pensas que se seguiu o que não se seguiu.
- Confesso que o cenário me parece muito propício...e quantos anos tinham?
- Ele tinha dezasseis e eu quinze.
- Se tivesse acontecido eu poderia esquecer, mas não aconteceu.
- Não aconteceu nada?
- Aconteceu sim. Ele pegou na minha mão esquerda e limpou com um beijo cada gota de água que escorria dos meus dedos. Depois fez o mesmo à mão direita. E quando eu ia retribuir-lhe com uma festa no rosto, parou o meu movimento em pleno voo e disse que tinhamos que voltar imediatamente porque a tempestade ia piorar. Diz-me, há muitos homens que nos tocam, mas achas que se consegue esquecer um que nos beija cada um dos dedos com tamanha devoção?
~CC~

sexta-feira, outubro 17, 2008

Sobre a história "ausências e errâncias"...

Gosto de histórias, de lendas, de mistérios. O que me interessa na religião é essa sua enorme relação com o mistério da vida, coisa que a ciência explicou sem revelar. Revelar é esse lançamento de luz, é a chegada da paz com a resposta.

Não esperava, que no dia em que comecei a escrever esta história sobre este lugar com o qual a minha vida em tempos se cruzou, esta capela tivesse sido notícia. Enquanto eu pensava no monte da Senhora da Candosa, nesta história de uma amizade entre uma jovem brilhante da aldeia com o padre que foi seu colega de escola, inspirada em dados tão reais quanto fruto da minha imaginação, a capela era assaltada e foi notícia no telejornal das oito. Acontece que não sou grande espectadora de televisão e nem sequer das notícias de qualquer um dos canais, mas na Quarta estava a ver. Nem queria acreditar no que ouvia, acreditem que durante anos e anos nunca ouvi falar dela e muito pouco daquela região. Mesmo sendo objecto de um assalto estranho (levaram os santos) não pensei que a pudesse ver na televisão, nem às pessoas da aldeia a chorar o ultraje à sua santa.

Era a minha Candosa, no mesmo dia escrita pelos meus dedos e objecto público de notícia. Há coincidências, tentei concentrar-me nisso, nas enormes coincidências, afinal só se podia mesmo tratar disso. Ou então, a senhora da Candosa, sempre pronta a pregar partidas, como em tempos fazia com os mouros que queriam inundar a aldeia.

~CC~

Ausências e errâncias (II)

-Lembras-te quando vieram cá aqueles miúdos da colónia e a monitora lhes contou a lenda da Candosa? O que eles se riram...acharam idiota a ideia de que esta passagem por onde o rio corre foi repetidamente aberta por uma santa.
- Vim para aqui muitas vezes, crente de que ela me apareceria.
- A senhora da Candosa?
- Sim, achava-me merecedor dessa aparição, era um miúdo arrogante.
- Pois eu toda a vida pensei que conseguiria explicar cientificamente o fenómeno destas pedras grandes que a seguir a esta passagem se encontram pelo rio, que conseguiria saber a data precisa em que a várzea foi um lago e a razão da cintiliação que todos diziam ver nas pedras ao cair da noite.
- Estão as nossas vidas explicadas, eu segui a profissão religiosa e tu és uma brilhante cientista.
- É verdade, o que uma lenda a atravessar as nossas infâncias e adolescências pode fazer-nos.
- O que temos nós em comum então?
- Vou dizer-te: "O desfiladeiro passa de leste para oeste, e pode ver-se o pôr do sol através dele(...) antigamente acreditava-se que as almas dos mortos viajavam sempre para oeste em direcção ao pôr do sol"(1). Talvez seja isto que une as nossas vidas.

~CC~

(1) in http://www.goisproperty.com/portugues/regiao%20de%20Gois/A_lenda_da_Candosa.html

quarta-feira, outubro 15, 2008

Ausências e errâncias(I)

- Olha bem lá para baixo, vê como é estreita a passagem e como o rio pode inundar todo o vale se impedirem a sua passagem. A senhora aparecia sempre montada num burro e apenas com o seu olhar impedia a tragédia de acontecer.
- Há quanto tempo foi?
- No tempo da ocupação, quando os mouros viviam por todo este Portugal.
- Acreditas que aconteceu mesmo?
- Podes ver nas pedras, estão lá as marcas, atravessaram os séculos.
- Podem ser marcas de qualquer coisa, como sabes que são do burro da senhora?
- Porque só as marcas do milagre resistem assim ao tempo, as outras desaparecem.
- Sinto o mistério, mas não acredito nele, não era suposto ser assim, pois não?
- Tens o principal para chegar à fé, o coração aberto a um outro entendimento do mundo.
- Sim, mas nunca chegarei lá.
- Há também qualquer coisa em ti que não quer.

Descemos devagar o monte da Candosa, respirando o vento doce que vinha dos pinheiros, sempre que a tarde chegava ao fim. Não fora ter olhado para o seu andar, teria uma vez mais esquecido que ele usava agora batina. Teria esquecido todo o campo da impossibilidade que essas vestes colocavam entre nós. O lugar teria sido propício a um corpo num abraço junto do meu corpo. E o vento dos pinheiros, como era doce e quente.
~CC~

terça-feira, outubro 14, 2008

Saudade


"...trate-a com carinho"
Só numa certa África as coisas se poderiam dizer desta forma. Saudade, tenho saudades.
~CC~

segunda-feira, outubro 13, 2008

Desnorte

Há locais onde destesto ir, o banco é um deles. Mas a verdade é que em todos os lugares onde há gente, a vida se mostra inteira no registo do tempo que vivemos. Pude assim perceber que não tinha sido a única destinatária de cartões multibanco novos sem nenhum pedido a justificá-lo. O senhor à minha frente acusava: eu nunca pedi nada, isto é um abuso de confiança!

O bancário tinha voz baixa e doce, e assumia um tom de culpa, não obstante explicar que eram apenas manobras publicitárias do banco, pelas quais ele não era responsável. Eram as chamadas campanhas de publicidade activa, um modo de contacto directo com o cliente, incentivando-o a comprar um produto, tudo oriundo da central e não daquela pequena agência de cidade periférica. Talvez numa outra altura essa agressividade do banco pudesse passar incólume, afinal tão legítima como outra publicidade qualquer. Mas não agora, há nas pessoas desconfiança e medo. De repente somos nós que parecemos tontos quando aconselhámos os mais velhos a não guardar o dinheiro debaixo do colchão. Os bancos provavelmente sempre foram instituições sem noção do bem comum, mas agora quase se nos afiguram mais próximos dos ladrões do que dos polícias. O homem que protestava nem tinha razão, nunca pagaria anuidade de um cartão se não o aceitasse e isso implicaria assinar um papel a declará-lo, mas compreendi muito bem a sua revolta. Era um "deixem-nos em paz!"

Eu cá achei imensa piada aos cartões cheios de flores que me enviaram, pensei mesmo que me eram exclusivos, dada a minha paixão pela flora, em estudos de mercado mais apurados devem mesmo vir com os cheiros que gostamos. Perguntei pelos outros cartões que já tinha e é claro que ela respondeu que só os anulava se quisesse, podia manter todos. Imaginei-me então com uns às bolas ou mesmo de várias cores para combinar com as roupas e é claro todos a pagar anuidade, que essa é a parte interessante para o banco. E pensar que há quem nem saiba que aqueles plasticozinhos se pagam. O senhor tem razão, talvez seja preciso gritar-lhes para parar. Ou talvez nos caiba a nós pará-los de vez.
~CC~

domingo, outubro 12, 2008

Aniversários

Escrevo-os no plural porque desde Agosto até Outubro não fazemos em família outra coisa que não apagar velas ao velho estilo tradicional, por vezes com umas pinceladas de alguma inovação e uma pitada da loucura, essa coisa boa que mora no nosso sangue. E há muitos amigos também nesta linha que cruza as duas estações do ano mais belas em cheiros, em cores, em chama e em melancolia, esta linha Verão-Outono.

Começa com a mais nova das manas, uma centelha de persistência, sempre a puxar pelo riso e a lutar contra os desesperos vários que teimam em cruzar-lhe a vida. E depois a mãe, já pelo final de Agosto. Este ano os seus oitenta mostraram-na em toda a sua juventude e beleza. Há também amigas pelo final de Agosto, algumas a que enviamos flores.

Depois em Setembro chegam os homens, estes sem dúvida mais distantes, mas há entre nós mapas traçados com estradas menos óbvias. E depois, já no final de Setembro, três de nós, são raparigas que gostam de palavras, têm lágrima fácil, são motivadas para convívios com as fadas e acreditam que as estrelas são todas gente boa que já morreu. Estão na transição entre o realismo que as sustenta e a magia branca que lhes dá asas. As amigas de final de Setembro são também assim.

Em Outubro chega o aniversário da mana mais velha e com ela inauguramos um planeta do cosmos onde o Outono já mora, por isso apesar desta estação trazer lá dentro o frio, são as cores quentes que ela procura sempre. Com ela aprendemos que as festas nunca nos devem envergonhar, muito pelo contrário. E há duas pessoas que me puxam pela ternura até o coração derreter, uma menina Celeste e um menino Ruca, tal qual duas personagens de banda desenhada que desceram dos quadradinhos para me trazer sorrisos.

E apesar de há uns anos atrás ter aberto muito os olhos para entender o que um amigo me dizia quando referia que depois dos trinta já não se fazem amigos, lembro hoje as palavras de um dos meus amigos mais recentes, em resposta ao abraço carinhoso que lhe enviei.
"O bom dos aniversários, para além do acréscimo de tempo nos ajudar a ter mais «sabedoria» para ver o que é mais importante, é o ar que respiramos ficar mais denso de amizade e isso é uma sensação muito forte, tão forte como a do homem do leme, de Fernando Pessoa, que mesmo nas situações mais difíceis nos faz sempre avançar e renascer."

Nem mais, JH!
~CC~

quinta-feira, outubro 09, 2008

Os dias do Verão no Sul que era Norte


Se Maria Laura não fosse ainda viva e uma mulher tão surpreendente que poderia vir até aqui espreitar-se, contaria a sua história inteira, como ela o fez numa tarde de Verão dentro de um escritório de pedra entulhado em papel velho. Falaria de mim e do modo como ela me ignorava para se centrar no homem que estava comigo, falaria de como gostei dela e ao mesmo tempo a detestei.

Todas as suas marcas de nobreza comprada marcavam um território de elite, onde os pobres seriam sempre os outros e os empregados seriam sempre isso, como se não pudessem ser pessoas. E ao mesmo tempo quanta coragem, quanta luta, quanta ousadia. Uma mulher que deu nome a uma casta de vinho fintando burocracias e biologias várias, não é uma mulher qualquer. Falaria de Maria Laura, de como é nascer mulher abastada no Portugal interior, de como se trocam e invertem papéis colados a nós à nascença, falaria de como é ser forte e de uma fraqueza e tristeza imensa. Falaria da sua solidão entre a folhagem das vinhas, das peras, das amoras.

Falaria de uma capela pequena coberta de hera e sempre fechada, falaria dos bancos de jardim onde ninguém se senta, dos santos de pedra dispersos pelos jardins, da piscina onde os hóspedes tomam banho. Falaria da mulher que despede os arquitectos e atormenta as empregadas, da mulher que diz não conseguir andar, enfiada tempos sem fim na sua cama, e depois de como ela sobe as escadas, escrutina tudo e descobre num ápice o que foi mudado de lugar.

Se ela sabe que estas meninas não são irmãs e que este homem e esta mulher não são casados, não sei se poderemos voltar a cruzar com esta tranquilidade o portão da quinta. Se ela sabe que vamos ao Festival das danças, onde os cabeludos sem eira nem beira se divertem, não sei se nos poderemos sentar a esta mesa a saborear o seu maravilhoso vinho. E se calhar tudo ela sabe, mas finge acreditar que somos esta família bem comportada de senhores professores que fugiram da praia no sul para se recolher nas leituras silenciosas da tarde.
~CC~

terça-feira, outubro 07, 2008

Dia(s) II

Na minha ausência aconteceu qualquer coisa estranha na minha casa. Está ali uma alfarrobeira pequenina que insiste em dirigir-me a palavra. Perguntei-lhe porque veio para aqui e respondeu que foi para me fazer companhia. Expliquei-lhe que estava bem sozinha, que não temo a solidão e que para calor, por ora, me bastava o do sol. E disse-lhe que desde a história do principezinho que já foi há muito, muito tempo atrás...que não há plantas a falar com pessoas, que aliás isso está completamente fora de moda, até nas histórias infantis. Não tive êxito com o reparo nem com a minha arrogância, ela respondeu que eu achava que me conhecia muito bem a mim própria mas se calhar não me conhecia assim tão bem.
Fiquei a pensar.

~CC~

Dia(s)

Hoje é dia mundial do beijo, dia mundial é um pouco menos do que universal, mas está muito perto de viajar pelo universo e é certo que pelo menos à lua chega. Mas é um dia mundial diferente dos outros porque varia na proporção exacta dos dias do calendário em que, para cada um de nós, um beijo alterou as nossas vidas. Eu tenho este que não esqueço e espero que perdure na memória dos tempos, assim riscado dentro de um Outono, antes e depois de um passeio de bicicleta. É pelos beijos que começamos a nascer.
~CC~

segunda-feira, outubro 06, 2008

Homens e bichos (XIII)

Durante muitos dias eu pensei que o meu vazio ia chegar ao fim, mas ele só se tornava maior a cada madrugada, a cada crespúsculo. E se a princípio achei que era uma loucura poder tornar-me numa ave, essa ideia passou a ser para mim uma obssessão. Imaginem que podem voar, que podem tornar-se num pássaro, mas que mantêm um olhar humano sobre o mundo, imaginem que são um ser de fronteira, capaz de falar duas linguagens: a dos homens e a dos animais.

Além dessa curiosidade imensa sobre a minha possibilidade de transformação num outro ser, havia ainda a possibilidade do amor. Eu já a achava linda e era ainda um homem, imaginava como a poderia ver com olhos de pássaro. Foi, no entanto, preciso que o Outono chegasse e com ele a tristeza das árvores nuas, o frio a entrar-me nos ossos, o dia a descer cada vez mais depressa para a noite. Foi preciso a tristeza habitar o meu corpo como se fosse a minha própria pele. Senti então o que ela me tinha dito como a condição da minha transformação: a dor intensa, o profundo desejo.

O azul do céu é agora riscado pelas minhas asas negras brilhantes. Ela muito branca, eu muito preto, somos um maravilhoso casal de aves a dançar entre as nuvens.

FIM
~CC~

quinta-feira, outubro 02, 2008

Homens e bichos (XII)

P- Não chores meu amor!
R- Não me chames meu amor
P - A tua namorada não te chamava assim?
R- Não, nunca...isso é um bocadinho piroso.
P - Piroso, o quer dizer piroso?
R- Sei lá eu explicar-te...é uma coisa sentimental de mais.
P - E queres ser o meu amor?
R- Mas como é que isso pode ser se eu sou um homem e tu uma pomba.
P - Tu podes transformar-te, eu não.
R- Queres dizer que me posso tornar numa ave?!
P - Sim, podes. Se quiseres podemos voar por todo este azul, é tao bom...se soubesses como é bom!
R - E como é que eu posso me posso transformar?
P - Por uma dor intensa ou um profundo desejo.
R - Estou cansado da minha vida, profundamente cansado.
P - Anda, transforma-te!
~CC~

terça-feira, setembro 30, 2008

Homens e bichos (XI)

Quando a Maria se foi embora, não senti logo dor. Primeiro pensei que em breve voltava, mas os dias passaram e não tive nenhuma notícia dela. E à medida que me faltava a sua voz ao telefone no final da tarde, a mão dela junto da minha nos passeios de sábado de manhã, o aconchego do seu corpo nas noites de fim de semana, à medida que a sua falta se ia fazendo vazio, fui ficando cada vez mais triste. Quando ela estava pouco dava por ela, mas agora sinto-a como nunca senti e dou-lhe razão nos protestos que fazia. As rosas vermelhas que lhe dava no seu aniversário, por exemplo. Lembro-me quando me perguntou porque é que lhe dava todos os anos o mesmo presente e da minha resposta atordoada, como um menino apanhado em falta. Uma resposta porque sim, porque tu gostas, enquanto ela me fitava com os olhos mais tristes do mundo.

E hoje, hoje posso dizer-vos que consegui finalmente chorar. Chorei primeiro devagar e depois convulsivamente, como se uma onda me arrancasse do chão e me levasse com ela num turbilhão, depois vieram os soluços e quando finalmente me tinha acalmado, vi a pomba branca na janela a olhar para mim. Tinha lá estado durante todo o tempo do meu choro, todo o tempo a olhar-me.
~CC~

segunda-feira, setembro 29, 2008

Quando os adultos jogam ao monopólio...

Quem é que, na infância ou na adolescência, não teve um amigo que o convidou para numa tarde de Verão ou numa noite grande de Inverno abrir o tabuleiro colorido do monopólio? O jogo era quase interminável e na maior parte das vezes só a contagem das propriedades e do dinheiro permitia decidir o vencedor, mas era um desafio que já mostrava alguma coisa do que cada um queria e podia ser. Eu nunca ganhei um jogo, e odiava ver quando alguém perdia tudo e ficava assim sem nada, sem dinheiro para pagar quando parava na propriedade dos outros, já nessa altura o jogo não me despertava grande entusiasmo.

Para a maior parte de nós foi a iniciação ao capitalismo, ainda assim uma coisa tão inocente comparado com o que sabemos hoje dele. As casas e os hotéis, mesmo de plástico, tinham existência, não eram papel fantasma a fingir de coisa valiosa. Os adultos que jogam hoje ao monopólio são quase como as crianças que fomos a querer ganhar o jogo comprando a rua Augusta e a rua do Ouro. Mas como não são realmente crianças são afinal perigosos, alimentam a sua vaidade e ganância com o sangue de todos os vulgares cidadãos que do capitalismo só conhecem os juros enormes cobrados pela banca no crédito à habitação.

Nós somos as presas fáceis, aqueles que ficam debaixo dos escombros no final do desabamento, nós somos os tontos e as verdadeiras vitímas do capitalismo selvagem que grassou por todo o mundo como uma nódoa num tecido. O que sobrou fora do capitalismo também não é coisa que se mostre a ninguém, meia dúzia de países com prateleiras vazias e masoléus ao chefe máximo. E apesar da indignação que corre o mundo, não há nenhum gestor (desses que ganham num mês o que não conseguiremos ganhar numa vida) responsabilizado ou acusado, muito menos algum será preso.

Perguntamos pelo futuro, agora que no fim do jogo do monopólio, não podemos ir lanchar como acontecia quando éramos crianças. E não há ninguém na política a construir outro futuro, a rasgar no seu discurso novos horizontes para a economia global. O que me assusta não é a crise, é não haver dentro dela esperança para um outro modelo de mundo.
~CC~

sexta-feira, setembro 26, 2008

luta


Há dias em que a vida de alguém se pode definir pela forma como se procura libertar do escuro, um escuro sombra, um vampiro ávido por roubar alegria. Sim, há dias em que a minha vida olhada como um caminho é isso, só isso. Eu a fugir-lhe por todas as janelas, eu a rodear-me de amor como uma armadura, eu a embalar uma criança, eu a proteger-me dentro das pedras, eu a trabalhar até à exaustão, eu a rir, a dançar, nua deitada nos teus braços, viva nos aplausos de uma plateia, feliz. O vampiro à espreita, sempre ali, à espera daquele momento em que vem e me abraça, sufoca-me, rouba-me o riso. Esta luta nunca acabará?!
~CC~

quinta-feira, setembro 25, 2008

Homens e bichos (X)


Maria: Sabes, vi um filme em que uma mulher ama um homem mau, ela sabe que ele é assim e que nem sequer lhe promete mudar. Eu não era capaz de amar um assassino.
João: Andas a ver filmes estranhos.
Maria: Mas era capaz de amar um homem mau que quisesse deixar de o ser, um assassino que se quisesse recuperar, que quisesse mudar.
João: Pois, pois, compreendo.
Maria: Tu não és mau nem és bom
João: Eu? Mas o que é que eu tenho a ver com esse filme?!
Maria: Tens, tens. Descobri que não te amo, espera, vou traduzir para ti: descobri que não gosto de ti.
João: Não estou a perceber nada do que dizes. O que queres afinal?
Maria: Quero ir-me embora, deixar-te finalmente!
João: Mas assim sem razão nenhuma? Não há nada que eu tenha feito, não estou a ver o porquê desta tua atitude agora.
Maria: descobri, descobri-me! Deixei de ser a menina que ia contigo à procura de tesouros!

~CC~



quarta-feira, setembro 24, 2008

Praxes

Elas chegam todos os anos, pior que uma praga. Aqui não são bem vindas, os docentes não gostam delas e por isso demoraram a chegar, mas acabaram ano a ano por ganhar terreno. As salas ficam vazias e os corredores e os jardins enchem-se de berros, cantorias patetas e palavras de ordem que nada manifestam. Os estudantes mais velhos parecem corvos pesados a bater com as asas nos pintasilgos, dizendo que essa é a melhor maneira de os acolher no novo ninho, e cada vez são menos os que duvidam dessa intenção.

Eles dizem que as praxes não são violentas, por aqui têm fama de ser doces. Mas nos últimos dias já vi veteranos sentados no bar enquanto os caloiros os serviam como criados e muita gente jovem estranhamente de joelhos se arrastando pelo chão, julgo que há melhor modo de o lavar. Não há praxe sem violência, ela alimenta-se sempre do poder dos mais fortes sobre os mais fracos, tem no seu cerne a humilhação do outro.

Sobrevivemos medindo forças, contamos os que apareceram e as aulas que se deram. Comecei bem o dia, logo às 8h30 da manhã tive sala cheia. Avancei vitoriosa pelo dia dentro até ao início da tarde. Apareceram umas meninas pintadas e roucas que tive dificuldade em reconhecer, abri os olhos de espanto para dar nome à que vinha à frente do grupo para falar comigo: era de facto uma das minhas melhores alunas do ano passado. Vinham explicar-se, não me queriam deixar na sala à espera dos alunos porque acham isso feio e indelicado para com os professores, pelo menos percebem isso, já não é mau de todo. Atrás delas traziam um caloiro sorridente que não abriu a boca e contaram meia dúzia de histórias dos novos alunos. Lá lhes disse que já não era mau se terem conhecido uns aos outros, mas que me parecia que isso também era possível sem praxes. Mas estavam felizes, nem me ouviram, não queriam saber para nada das minhas reticências.

Há quem goste de empates, não é bem o meu caso, gostava mesmo que as praxes acabassem e gostava de hoje cantar vitória. No entanto sou contra a proibição como aqui e ali vai soando como uma necessidade, só queria que os estudantes percebessem que não precisam delas.
~CC~

terça-feira, setembro 23, 2008

Homens e bichos (IX)



Sei que te pareceu bonita a forma como eu, ainda menina, me apaixonei por esse rapaz que buscava tesouros. Mas a beleza acaba aí, quando crescemos, nada sobrou desse encanto. Queres que te diga como começou o nosso namoro? Fomos para um campo de trabalho de Verão, ajudar na recuperação de umas ruínas romanas que estavam fechadas ao público. Quando o trabalho terminou, um grupo ficou mais uns dias por alí. Eu e ele dormimos na mesma tenda, ele chegou-se a mim durante a noite, chegou-se mais e mais e eu fui com ele embalada naquelas carícias tão pouco habituais entre nós. Na manhã seguinte perguntei-lhe se gostava de mim e ele disse, desviando o olhar para um canto qualquer: gosto, claro que gosto. E assim estamos, desde há sete anos atrás. Não, nunca mais lhe perguntei nada, muito menos ousei alguma vez pronunciar a palavra amor, tive sempre medo de parecer ridícula, de lhe parecer ridícula.


~CC~

segunda-feira, setembro 22, 2008

Equinócio

São quarenta e quatro equinócios, quarenta e quatro vezes o Verão a despedir-se e o Outono a chegar, descontados dez, passados do outro lado do Equador. Sei que o calor não se vai, guardo-o, assim vindo de tantos cantos amigos.
~CC~

sexta-feira, setembro 19, 2008

Homens e bichos (VIII)

Perguntas-me porque escolhi o castelo de Almourol?! Primeiro tenho que dizer-te que desde que acabei Arqueologia há cinco anos atrás que ando de estágio em estágio profissional e por este andar acabarei a carreira como estagiário profissional. Dito assim, compreendes que havia este lugar e que cá vim parar.

De resto escavo desde criança, ando sempre à procura de alguma coisa e qualquer resto de loiça com mais de 2000 anos já me faz feliz. Dou-me bem com o que resta dos homens, melhor com as suas memórias do que com a sua presença. Digo-te mais, Almourol é capaz de ser um dos únicos castelos virgens que nos resta. Está livre de cafés, de lojinhas de imitações de objectos antigos, das pousadas de portugal e animações de todo o genéro. Aqui minha querida, não se dança nem se canta, não se come nem se dorme, aqui só há a pedra e o rio. De vez em quando chegam umas quantas pessoas, mas poucas e só mesmo no Verão. O barqueiro tira-lhes uma fotografia com o castelo por trás e já ficam felizes, de resto nunca demoram mais de meia hora, isto é uma ilhota perdida no meio do Tejo, onde só os mais loucos se poderiam lembrar de fazer um castelo.

Eu estou bem aqui, não tenho saudades de quase nada, às vezes lembro-me da Maria, mas já estamos juntos há tantos anos que mesmo sem estar com ela, é como se estivesse. Para mim, isto seria o Paraíso, não fora a pomba branca. Já estive em algumas escavações, mesmo antes de acabar o curso e obviamente que as pedras velhas estão cheias de histórias e lendas, sei isso muito bem. Mas nunca, nunca alguma vez, nem nos meus piores pesadelos, me imaginei a falar com uma moura disfarçada de pomba branca. Se me contassem, eu também não acreditaria, por isso compreendo-vos, mas ela existe, posso assegurar-vos.
~CC~


quinta-feira, setembro 18, 2008

Queridinha...

Trata-me por queridinha mal entro, embora depois me pergunte: como é mesmo seu nome? Mas depressa ela se lembra que embora seja cliente pouco habitual eu mereço igualmente a sua doçura e vai dizendo: nossa, que bom ter vindo e vai ficar linda. Depressa me esqueço que me tortura porque em função desse: nossa amor, você parece outra, toda a dor é na verdade infíma.

Antes do sector manicure pedicure e outras torturas mais ser tomado por aquelas jovens e lindas brasileiras, raramente eu ia lá ou a outro sítio qualquer. Agora sim, vale a pena. No final ela vai buscar o creme e faz uma massagem pelo rosto, e embora isso nada acrescente a ter mais ou menos pelos, adormece-me para o resto do dia, arrasta-me num torpor de país de sol. Mas há mais, ela pergunta-me: unha meu bem, vamos tratar dessas suas unhas? Eu ai reajo com alguma impaciência pois de repente tudo me parece hipocrisia pura e eu não sou queridinha coisa nenhuma. Penso: mas será que apesar de estar aqui deitada há quase meia hora nesta marquesa de beleza, ela não viu as minhas unhas roídas?

Roídas é um termo ligeiro para o bocadinho de unha que me resta em cada dedo. Protesto pois com ela: mas eu não posso arranjar as unhas, não vê como estão? Pois, queridinha, não tem problema, a gente faz assim mesmo, arranja só uma pelezinha de lado e arredonda e aí já vai ficando mais bonita, você vai gostando e vai deixando de roer. Vou respondendo incrédula: talvez, talvez volte outro dia, também há quem diga que se puser unhas de gel também resulta. Queridinha, unha de gel não é bonito, é coisa grosseira, unha não há como a sua!

E saio a pensar: Queridinha, um dia eu volto, você sabe mais de Psicologia que muitos dos professores que me deram aula no curso. E na verdade sinto-me linda.
~CC~

terça-feira, setembro 16, 2008

Homens e bichos (VII)


Perguntas-me quando é que o conheci? Ele era um rapazinho e eu uma miúda. Nesse tempo usava galochas cor de rosa com flores, era moda, mas não as usava só por por isso. Saia da escola e desviava do passeio pelo terrero baldio, enfiando os pés em tudo o que era poça de água, isto durava todo o outono até o Inverno alagar tanto a terra que não podia mais fazê-lo. Talvez não acredites, mas nesse baldio havia um ou dois moinhos de água abandonados, eram do tempo em que o Tejo era um outro rio. Encontrava invariavelmente esse miúdo junto aos moinhos, ficava parado a ver-me até eu passar bem ao largo. Não percebia o que fazia ali sozinho, o filho do moleiro é que não podia ser.

Um dia acenei-lhe e sorri e ele correspondeu com um aceno, mas sempre sério. No dia seguinte tive coragem e perguntei-lhe porque é que depois da escola ia sempre para ali. Disse-me: ando à procura de um tesouro! Quantos rapazinhos conheces que aos oito anos gastem o que resta das suas tardes à procura de tesouros? No dia a seguir eu também já era uma caçadora de arcas de oiro, sonhava encontrar os colares e os brincos de pelo menos uma dúzia de princesas.

Quando penso nisso hoje...como é que se procuram tesouros debaixo das pedras de um moinho? Nunca mais nos separámos, só ele é que me chama Maria, mais ninguém, é o que o meu nome é Mariana, mas ele disse-me logo que esse não era um nome real, por isso aqui me tens, feita rainha do nada. Desde que ele arranjou emprego nesta escavação que o meu vazio aumentou na proporção da loucura dele.


~CC~

segunda-feira, setembro 15, 2008

Ler(vos)

Há muito que os leio sem lhes prestar a devida homenagem, como sabem os meus gostos nem sempre são iguais aos das referências que vejo tantas vezes repetidas na estante dos notáveis, os notáveis são e sempre serão os que me cortam o coração com a sua beleza, um critério assim como outro qualquer. Agora ali, ao meu lado, mais perto ainda.

Com a Claúdia, chega um outro azul, uma brisa da tarde a correr intensa por dentro.
http://bluemolleskin.blogspot.com/
(sei que vive algures, imagino-a no campo, junto a um rio)

Com o JRMarto, a poesia habita cada coisa simples para a transformar numa outra, numa outra em que a sua luz se inscreve.
http://vaandando.blogspot.com/
(conheci-o sentado a uma mesa na cidade onde moro, sei que Lisboa é por ora a sua cidade, veio por mãos amigas)

Com a Clorinda, chegam palavras e imagens que colecciona com habilidade e gosto, um caderno para aumentar o nosso reportório e enriquecer o quotidiano.
http://clo-carpediem.blogspot.com/
(sei que nasceu em Trás os Montes e que vive no Porto, sei que virá um dia para um café)

Com a Girafa cor de rosa chega a frescura de quem faz da esperança um modo de ser
http://xm-girafadepatins.blogspot.com/
(não sei onde nasceu, sei que mudou do Norte para o Sul e que agora está perto, sei que um dia aparecerá por aqui ou eu por lá).

Com o Eurico, chegam ecos de romances que já li e de lugares onde estive ou quero estar. Os seus saberes múltiplos espelham-se em imagens, em música, infiltram-se na sua poesia.
http://cantodosul.blogspot.com/
( sei que vive no sul, vi-o pelo menos uma vez, na casa que fica junto à ria formosa, é amigo dos meus amigos e família do sul).

Com a Deep chegam ecos de quem ama a vida no seu quotidiano a norte e escreve em caderno com giz de terra e com música
http://amaroinfinito.blogspot.com/
(sei que vive no Norte e só podia ter vindo através de afinidades T-O-M).

Este Verão, na minha estante dos privados, chegaram duas meninas grandes, juntando o amor à admiração pelo modo como se dizem gente.

http://minhasmaravilhas.blogspot.com/
http://pinosetokiohotel.blogspot.com/

Um prazer viver na vossa companhia.

~CC~

domingo, setembro 14, 2008

A escola

O regresso à escola acontecia dentro de uma saudade violenta que ocorria depois de quase três meses de férias. Tudo já se tinha feito ao tempo e a chegada de um entardecer mais frio era o aviso de que a vida ia mudar. Mais do que os cadernos, os livros, o regresso da rotina e da regra, o que nos trazia alegria era a ideia de que os amigos da escola estavam à nossa espera no mesmo lugar onde há pouco tempo os tínhamos deixado.

Agora, com AF., descobri que pode já não ser assim, ao fim de um ciclo de ensino, uma turma pode ser desfeita sem que se tenha que dizer porquê. No final da escola primária foi a dolorosa e difícil escolha de "seis amigos com quem ir" e agora no final do 2º ciclo não há nem deixa de haver escolha, constata-se pela pauta que a turma se desfez. Alguns amigos estarão à espera e outros deixarão de estar, sem que as crianças e os jovens tenham tido sobre isso algum controle, o que é bem diferente de uma amizade se poder desfazer naturalmente ou por força de circunstâncias compreensíveis. A esta interrogação que temos sobre o que a escola faz, alguns chamarão a perigosa intromissão dos pais na educação. Não me parece, eu sou também da escola, e mesmo que não o fosse hoje, já tinha sido um dia, todos o fomos, a escola é de todos.

Pergunto também pela minha saudade, ela chega-me atenuada e creio saber porquê, as férias foram demasiado curtas para poder sentir muita vontade de voltar. No entanto, há dentro de mim ainda deslumbramento pelo que faço, é um brilho que vou encontrando à medida que o ano avança e sei quanto pode ser intenso.

Mas por estes dias penso sobretudo em S e em L que começam o 2º ciclo, penso no que sentirão face à enorme mudança que chega à vida delas e penso em AF que começa o 3º Ciclo e cujo horário só lhe deixa duas manhãs livres. Por estes dias penso nestas crianças crescidas, nestas minhas crianças.
~CC~

quinta-feira, setembro 11, 2008

Homens e bichos (VI)

R - Joana, diz-me lá, tu falas com as tuas bonecas?
J - Claro tio, e elas também falam.
R - Então porque é que eu não oiço o que elas te dizem?
J - Porque é só para mim que falam, tu não podes ouvir.
R - Vou contar-te uma história, uma lenda
J - Conta, conta, tu nunca me contas histórias!

(Depois de contar a lenda do Arripiado a Joana, coisa que ela ouviu de olhos bem arregalados)

R - Sei que acreditas que esta pomba fala como as tuas bonecas, mas agora diz-me...ela já não devia ter morrido há muito?
J - Mas ela não pode morrer enquanto não encontrar de novo o seu amor, só aí é que ela vai descansar para sempre
R - Mas ela diz que não pode voltar a ser mulher, a ser moura
J - Tem que haver uma solução, ela vai encontrar, vais ver. As mouras sabem muita coisa, eu acho que elas ainda sabem mais que as princesas vulgares.

~CC~

domingo, setembro 07, 2008

Diálogos com os santos

Falo baixinho e longamente com os santos de pedra sem nome que moram em jardins anónimos. São bons e doces para os corações aflitos.
~CC~

Homens e bichos (V)

R- Mãe, mãe...está a escutar-me? Vou no Domingo, faça o seu cozido à portuguesa
M- Quem diria meu filho, em criança não gostavas nada desse prato! Vai cá estar a tua irmã e as duas miúdas dela.
R- Tenho saudades das miúdas!

(Fiquei a pensar nas minhas sobrinhas, talvez nelas estivesse a chave do mistério, afinal as crianças também falam com os bichos. Se calhar elas compreenderiam que na minha última semana quase todos os meus diálogos tivessem sido com uma mulher moura, disfarçadada pombra branca).
~CC~

sábado, setembro 06, 2008

Homens e bichos (IV)

Quinta abandonada. Santarém. Agosto 2008.


P - És bonito como ele era.
R - Bonito, eu? Nunca ninguém me disse tal coisa.
P - Tens uns olhos com muita luz, mas não sabes.
R - E como é que são uns olhos com luz?
P - Olhos que podem voar.
R - Tens uma conversa estranha para uma pomba.
P - Mas eu sou uma mulher!
R - E quando é que deixas de morar no corpo de um bicho? Não me digas que é quando te apaixonares...
P - Não, nunca mais poderei voltar a ter corpo e rosto de mulher.
R - Então nunca nos poderemos encontrar, se é assim porque vens aqui falar comigo, porque é que me tentas encantar...ou mesmo enlouquecer.
P -É por ti que o faço, pela luz dos teus olhos.
R - Vai-te embora, vai de uma vez, não venhas mais aqui falar comigo.
P - É mesmo o que queres? Então vou.
(...silêncio do rapaz)

R- Não, não vás ainda...preciso de descobrir qual é o teu mistério.

(no momento em que o rapaz disse estas palavras e disse-as tão baixinho, já a pomba tinha iniciado o seu voo e por isso não sabemos se as ouviu)

~CC~

sexta-feira, setembro 05, 2008

Homens e bichos (III)

rio Tejo, Agosto 2008

R- Estás a ver ali do outro lado do rio? É ali o Arrepiado, a aldeia da lenda de que te falo.
M - Parece-me muito bonita, já lá foste?
R - Fui ao cemitério ver se lá estava a campa do cristão que Ari amava, mas não vi nada.
M - Já a devem ter tirado, já foi há muito tempo, mas toda a gente conhece lendas de mouras encantadas, a tua pomba é só uma delas.
R - Maria, mas como disseste é uma lenda, por isso não faz sentido o que me está a acontecer.
M - Talvez ela tenha reconhecido em ti o seu grande amor, o rapaz cristão de quem o pai a separou para a encerrar ali na torre.
R - Queres ajudar-me ou pelo contrário, queres enlouquecer-me ainda mais?!
M - Enlouquecer-te claro, há lá coisa mais bonita que enlouquecer um homem. Mas acho que a pomba está a tratar disso por mim.

~CC~


quinta-feira, setembro 04, 2008

Homens e bichos (II)

Barqueiro do Castelo de Almourol. Agosto 2008

R-Há quanto tempo anda aqui a trazer pessoas para o castelo?
B - Olhe, comecei tinha só 12 anos, quando acabei a primária, vim ajudar o meu tio. Mas nessa altura havia muito mais gente, agora o movimento é pouco, mesmo no Verão.
R - Por isso é que tem esses patrocínios?
B- Ó amigo, é o que me vale. Mas o barco é da autarquia.
R - Não percebo isso lá muito bem, mas estou interessado num outro assunto.
B - Então diga lá qual, estamos aqui é para os clientes! Quer uma foto?! Há ali um lugar muito bom para as tirar, quando o barco dá a volta e as pessoas ficam enquadradas pelo castelo.
R - Deixe lá isso da foto, eu ando aqui é em trabalho. Você já ouviu falar na pomba, numa lenda de uma moura?
B - Mas é claro, todos a conhecemos.
R - Mas conhece a lenda ou a pomba?
B - Homem, então não são a mesma coisa? É a lenda da moura-pomba.
R - Sim, mas já viu a pomba? Já falou com ela?
B - Ver já vi que anda sempre aí, e é única, não há mais nenhuma, mas comigo nunca falou. Oiça lá, você nunca usa chapéu?
~CC~

quarta-feira, setembro 03, 2008

Homens e bichos (I)

Castelo de Almourol, Agosto 2008


P- Rapaz, porque me olhas tão intensamente?
R- Porque estás aí parada há muito tempo a olhar para mim
P- Porque mexes no que não deves, essas pedras não são para tirar daí.
R- E porquê?
P- Porque debaixo delas está há séculos escondido o meu diário.
R- O diário de uma pomba?!
P- Disseste mal, é o diário de uma moura, de nome Ari.
R- Mas tu és uma pomba, a pomba mais branca que já vi e com os olhos mais pretos.
P - Pareço uma pomba mas sou uma moura, sou desse tempo.
R- Qual tempo?
P- O tempo em que as pessoas se podiam transformar em animais e vice versa.
R - Mas esse tempo nunca existiu e se existiu porque é que acabou?
P - Existiu sim, mas acabou. Os homens viviam perto da natureza, em comunhão íntima, por isso podiam transformar-se, não eram reinos diferentes, como são hoje.
R- E como se conseguiam transformar?!
P- Por um sentimento, uma emoção ou um desejo intenso.
R- Só assim?!
P - Sim
R - Isso é impossível, não é verdade.
P - Mas então porque é que estás a falar com uma pomba? Isso é impossível.

Se quiser saber mais:

terça-feira, setembro 02, 2008

Coisas pequenas

Chamou-a para ver o que tinha riscado. E ela riu, feliz com aquele gesto tão doce.

~CC~

segunda-feira, setembro 01, 2008

Despedida

É Setembro, mês de entristecer com os fins de tarde de vento gelado na praia. É Setembro, lugar de partida dos almoços ruidosos de fato de banho e chinelos em torno do peixe fresco e das sobremesas vermelhas. Fecham-se as casas de praia, lavam-se as toalhas, traz-se um casaco para a noite. É Setembro, encerram devagar e pouco a pouco as festas nos castelos, nas praias, nos jardins, o jazz no coreto. Poderia morrer em Setembro com esta tristeza que é o Verão a terminar, não fora ter nascido neste mês. Concentro-me na alegria que pode sobrar.

Este é o mês das sementes a tentar absorver o máximo de água e o que sobra do calor do sol para poderem emergir, sair da casca. Nas mãos gretadas e de unhas amarelas que as deitam ainda à terra, nas máquinas que as cospem a toda a velocidade, há a esperança que possa haver vida num pequeno nada. É em Setembro que se colhe ao mesmo tempo que se semeia, que as uvas chamam as abelhas ao mesmo tempo que os passáros tentam roubar as sementes aos agricultores e eles os espantam com bonecos que parecem homens. É a vida a romper debaixo da terra, mesmo que o vento teime em levar as folhas.

~CC~

sexta-feira, agosto 29, 2008

Bebe o leite meu passarinho...

Bebe o leite meu passarinho, bebe o leite sem parar. É esta uma das mais bonitas canções de embalar, da autoria do José Mário Branco. A verdade é que os 12 anos que me separam dela me fizeram esquecer metade da letra. As que me ocorrem para embalar acalmar e entreter o menino são ainda as mais tradicionais, que saem sem que dê sequer conta que permaneceram em mim todo este tempo. São vinte e cinco anos a separar o sobrinho mais novo que parecia saído em versão rapaz da história da menina dos caracóis loiros e dos três ursinhos deste pequeno rapaz, este em versão morena e sem hipótese de engano de género.

Quando olho agora para ele só consigo pensar que foi o bebé mais pequeno que alguma vez vi, com 25 semanas era do tamanho de uma mão e parecia completamente desprotegido na luz crua da incumbadora. Depois de dois meses de vida em caixas cada vez mais abertas, podemos enfim vê-lo infinitamente pequeno numa cama normal de hospital. Voltaria lá, contudo. E sempre em situação de emergência e de risco de vida. Em Cabo Verde, estive a um passo de voltar, numa altura em que tudo parecia perdido.

Nunca pensei que agora o levaria a ver o mar, a colocar os pés na relva, na areia molhada, na areia seca, a mostrar-lhe como o voo das gaivotas é diferente do dos aviões. Não pensei sequer que ele seria um habitante no meu quarto e que por sua causa o meu sono se tornaria ainda mais leve, da consistência das nuvens. Estes quinze dias são estes e mais as memórias de todas as crianças pequenas que viveram momentos significativos no meu colo, e sou eu mas sou outra, uma outra que já não julgava ter tão vivo este instinto de protecção. É verdade que a quase ausência dos meus dias de praia, as minhas escritas várias por fazer, as entrevistas por transcrever, os trabalhos cuja urgência me pesa, o namoro que se tornou difícil e até a casa que este ano praticamente não habitei, tudo isso me deixa angústia e até saudade. Estes não eram os dias que tinha planeado, mas o seu pedido de ajuda bateu mais fundo, impossível negar quando é o emprego de uma irmã que está em causa.

E depois há aquele sorriso que acorda as nossas manhãs com tanto encanto que tudo o resto se dilui e nos sentimos felizes por este bebé estar vivo e fazer parte das nossas vidas.

~CC~

domingo, agosto 24, 2008

flor para aniversário

Pela semelhança da flor com o modo ela é aos meus olhos, trouxe-a de S. Pedro do Sul para a deixar aqui hoje. Parabéns CristinaGS, abraço apertadinho.
~CC~

quarta-feira, agosto 20, 2008

Agosto rubro

Dantes o tempo parava em Agosto para que as forças com que enfrentamos o mundo se pudessem renovar. Era possível por uns dias pensar que a vida se resumia aos castelos e poças de água com que as crianças invadem as praias, aos pregões das bolas de berlim, às notícias parvas e insignificantes dos telejornais, capazes de abrir com um anúncio de uma abobóra gigante em Rio Maior ou com as festas de algum rei árabe instalado em Vilamoura.

Mas este Agosto está a acontecer sem inocência. Eu passo naquela rua onde hoje um homem foi morto num assalto, é já ali quase ao virar da esquina . Eu faço um número de vezes sem conta e a todas as horas do dia ou da noite aquela auto-estrada em que uma carrinha foi barrada e aberta com explosivos, eu frequentei com regularidade nos últimos tempos aquele hospital onde uma mãe em desespero deixou um bebé recém nascido (e cujo parto, que ironia, foi em casa). Este Agosto, o coração não teve quase direito a parar, a meio das férias, em pleno verde absorvente, abrimos o mapa para perceber onde era a Georgia. E hoje não pude deixar de recordar as últimas duas horas em que estive fechada num avião por causa de uma falha eléctrica e do que senti na altura relativamente ao fio da navalha que se instalou nos voos e nos aeroportos, há alguma coisa que não está bem e é urgente intervir. Nunca um avião deveria levantar sem a certeza de que os seus motores estão bem, não se trata do vento, da noite, da tempestade, do que é acidental e não pode ser controlado pelo homem. Triste tarde em Madrid.

Para gente que não faz da indiferença aos outros o seu modo de ser feliz, já não há já descanso. Estamos condenados a viver de olhos abertos, coração tremente e em aflição permanente.

Já não há Agostos inocentes, em que se pode fechar os olhos e deixar que a lua quente se instale em nós num assombro de beleza capaz de nos fazer esquecer tudo.
~CC~

segunda-feira, agosto 18, 2008

Agosto

De que tempo é feito este tempo outro que nos corta ao meio o ano? Nem todas as férias são durante Agosto mas Agosto é este mês de águas paradas em que tudo dentro de nós parece desejar evadir-se, é uma espécie de letargia umas vezes tão alegre que parece que nunca mais pararemos de nos deleitar com o sumo das melancias e com o sabor que o sal nos deixa na pele. Neste tempo que é de Agosto a Sul depois de ter sido de Agosto a Norte, é a felicidade de não estar só, de dentro da minha vida se alojarem tantas outras como num ninho, é o gosto por esse calor. E de outras é Agosto tecido de uma tristeza que nos vem cobrir como um manto sem razão forte, é um torpor feito de ausências sem nome e de desejos que nunca se satisfazem completamente. É de repente a tristeza de alguém que nos falta, de uma coisa que desejavámos ter ouvido do nosso amor, de uma vida que ainda assim podia ser outra.

E em Agosto os outros ganham o pleno dos dias, já não os vemos só no fim da tarde ou ao final de semana, eles estão lá o dia inteiro e não há fuga possível. E há aqui também toda a ambiguidade que costuma habitar os dias, sem encontro marcado e sem dias aos bocadinhos, conhecemos melhor os outros, eles mostram-se em toda a sua inteireza. E nessa inteireza volta a haver tanta coisa bonita, tantos acordares e anoiteceres iluminados por um sabor e por uma paz que o ano não nos deixa ter, tanta alegria nestes almoços ruidosos, nesta mesa a transbordar de gente ou em tempos a dois que parecem que são um luar a anunciar luz para sempre. Mas há também o resto, o modo como a intimidade gera por vezes a não escuta, o modo como se deixa entrar a lassidão nos compromissos que têm que ser colectivos para não pesarem mais a uns do que a outros, o modo como as rotinas entram dentro das férias para as tornar ainda rituais em que pesam preconceitos, rótulos e estatutos. O modo como a Educação dos homens, mesmo dos homens bons que se esforçam por respeitar as mulheres, se mostra ainda insuficiente para um mundo verdadeiramente de direitos iguais.


As férias são ainda um outro lado dos outros que se nos mostra e eu gosto de estar acordada a ver, tenho a vida sob observação permanente. E a mim própria também.
~CC~

sábado, agosto 16, 2008

Verde dissolvente

Verão 2008. S.Pedro do Sul

Respirar por dentro das árvores, isto também posso ser eu.
~CC~