sexta-feira, agosto 29, 2008

Bebe o leite meu passarinho...

Bebe o leite meu passarinho, bebe o leite sem parar. É esta uma das mais bonitas canções de embalar, da autoria do José Mário Branco. A verdade é que os 12 anos que me separam dela me fizeram esquecer metade da letra. As que me ocorrem para embalar acalmar e entreter o menino são ainda as mais tradicionais, que saem sem que dê sequer conta que permaneceram em mim todo este tempo. São vinte e cinco anos a separar o sobrinho mais novo que parecia saído em versão rapaz da história da menina dos caracóis loiros e dos três ursinhos deste pequeno rapaz, este em versão morena e sem hipótese de engano de género.

Quando olho agora para ele só consigo pensar que foi o bebé mais pequeno que alguma vez vi, com 25 semanas era do tamanho de uma mão e parecia completamente desprotegido na luz crua da incumbadora. Depois de dois meses de vida em caixas cada vez mais abertas, podemos enfim vê-lo infinitamente pequeno numa cama normal de hospital. Voltaria lá, contudo. E sempre em situação de emergência e de risco de vida. Em Cabo Verde, estive a um passo de voltar, numa altura em que tudo parecia perdido.

Nunca pensei que agora o levaria a ver o mar, a colocar os pés na relva, na areia molhada, na areia seca, a mostrar-lhe como o voo das gaivotas é diferente do dos aviões. Não pensei sequer que ele seria um habitante no meu quarto e que por sua causa o meu sono se tornaria ainda mais leve, da consistência das nuvens. Estes quinze dias são estes e mais as memórias de todas as crianças pequenas que viveram momentos significativos no meu colo, e sou eu mas sou outra, uma outra que já não julgava ter tão vivo este instinto de protecção. É verdade que a quase ausência dos meus dias de praia, as minhas escritas várias por fazer, as entrevistas por transcrever, os trabalhos cuja urgência me pesa, o namoro que se tornou difícil e até a casa que este ano praticamente não habitei, tudo isso me deixa angústia e até saudade. Estes não eram os dias que tinha planeado, mas o seu pedido de ajuda bateu mais fundo, impossível negar quando é o emprego de uma irmã que está em causa.

E depois há aquele sorriso que acorda as nossas manhãs com tanto encanto que tudo o resto se dilui e nos sentimos felizes por este bebé estar vivo e fazer parte das nossas vidas.

~CC~

domingo, agosto 24, 2008

flor para aniversário

Pela semelhança da flor com o modo ela é aos meus olhos, trouxe-a de S. Pedro do Sul para a deixar aqui hoje. Parabéns CristinaGS, abraço apertadinho.
~CC~

quarta-feira, agosto 20, 2008

Agosto rubro

Dantes o tempo parava em Agosto para que as forças com que enfrentamos o mundo se pudessem renovar. Era possível por uns dias pensar que a vida se resumia aos castelos e poças de água com que as crianças invadem as praias, aos pregões das bolas de berlim, às notícias parvas e insignificantes dos telejornais, capazes de abrir com um anúncio de uma abobóra gigante em Rio Maior ou com as festas de algum rei árabe instalado em Vilamoura.

Mas este Agosto está a acontecer sem inocência. Eu passo naquela rua onde hoje um homem foi morto num assalto, é já ali quase ao virar da esquina . Eu faço um número de vezes sem conta e a todas as horas do dia ou da noite aquela auto-estrada em que uma carrinha foi barrada e aberta com explosivos, eu frequentei com regularidade nos últimos tempos aquele hospital onde uma mãe em desespero deixou um bebé recém nascido (e cujo parto, que ironia, foi em casa). Este Agosto, o coração não teve quase direito a parar, a meio das férias, em pleno verde absorvente, abrimos o mapa para perceber onde era a Georgia. E hoje não pude deixar de recordar as últimas duas horas em que estive fechada num avião por causa de uma falha eléctrica e do que senti na altura relativamente ao fio da navalha que se instalou nos voos e nos aeroportos, há alguma coisa que não está bem e é urgente intervir. Nunca um avião deveria levantar sem a certeza de que os seus motores estão bem, não se trata do vento, da noite, da tempestade, do que é acidental e não pode ser controlado pelo homem. Triste tarde em Madrid.

Para gente que não faz da indiferença aos outros o seu modo de ser feliz, já não há já descanso. Estamos condenados a viver de olhos abertos, coração tremente e em aflição permanente.

Já não há Agostos inocentes, em que se pode fechar os olhos e deixar que a lua quente se instale em nós num assombro de beleza capaz de nos fazer esquecer tudo.
~CC~

segunda-feira, agosto 18, 2008

Agosto

De que tempo é feito este tempo outro que nos corta ao meio o ano? Nem todas as férias são durante Agosto mas Agosto é este mês de águas paradas em que tudo dentro de nós parece desejar evadir-se, é uma espécie de letargia umas vezes tão alegre que parece que nunca mais pararemos de nos deleitar com o sumo das melancias e com o sabor que o sal nos deixa na pele. Neste tempo que é de Agosto a Sul depois de ter sido de Agosto a Norte, é a felicidade de não estar só, de dentro da minha vida se alojarem tantas outras como num ninho, é o gosto por esse calor. E de outras é Agosto tecido de uma tristeza que nos vem cobrir como um manto sem razão forte, é um torpor feito de ausências sem nome e de desejos que nunca se satisfazem completamente. É de repente a tristeza de alguém que nos falta, de uma coisa que desejavámos ter ouvido do nosso amor, de uma vida que ainda assim podia ser outra.

E em Agosto os outros ganham o pleno dos dias, já não os vemos só no fim da tarde ou ao final de semana, eles estão lá o dia inteiro e não há fuga possível. E há aqui também toda a ambiguidade que costuma habitar os dias, sem encontro marcado e sem dias aos bocadinhos, conhecemos melhor os outros, eles mostram-se em toda a sua inteireza. E nessa inteireza volta a haver tanta coisa bonita, tantos acordares e anoiteceres iluminados por um sabor e por uma paz que o ano não nos deixa ter, tanta alegria nestes almoços ruidosos, nesta mesa a transbordar de gente ou em tempos a dois que parecem que são um luar a anunciar luz para sempre. Mas há também o resto, o modo como a intimidade gera por vezes a não escuta, o modo como se deixa entrar a lassidão nos compromissos que têm que ser colectivos para não pesarem mais a uns do que a outros, o modo como as rotinas entram dentro das férias para as tornar ainda rituais em que pesam preconceitos, rótulos e estatutos. O modo como a Educação dos homens, mesmo dos homens bons que se esforçam por respeitar as mulheres, se mostra ainda insuficiente para um mundo verdadeiramente de direitos iguais.


As férias são ainda um outro lado dos outros que se nos mostra e eu gosto de estar acordada a ver, tenho a vida sob observação permanente. E a mim própria também.
~CC~

sábado, agosto 16, 2008

Verde dissolvente

Verão 2008. S.Pedro do Sul

Respirar por dentro das árvores, isto também posso ser eu.
~CC~

quarta-feira, julho 30, 2008

Pousio

No tempo em que a minha aspiração profissional era a agricultura costumava apreciar uma terra sem nada, em pousio, coisa que agora, nos tempos da agricultura intensiva, já não se usa. Não era uma terra vazia, era uma terra à espera do momento das sementes e das primeiras chuvas.


Também eu preciso de um tempo assim, de pousar as palavras no silêncio e de deixar que o corpo tome conta de mim.


Voltarei, quando as palavras, de tão sumarentas e maduras, precisarem de se soltar na ardósia, na ardósia azul. Agora pousio.
~CC~

terça-feira, julho 29, 2008

Perguntas intímas (I)

Decifrar em cada vida uma palavra tão curta como o amor pode ser uma tarefa de sucesso incerto e sem fim à vista. Não obstante a tarefa me parecer impossível, continuo a tentar compreender como acontece e como morre ou permanece, interessa-me sobretudo entender o modo como a sua luz pode brilhar tanto e tanto tempo como a de uma estrela.
~CC~

domingo, julho 27, 2008

Memórias com voz (II)

O mar da minha infância morava ao meu lado e podia sentir-lhe o cheiro mas era feito de distância, um tapete líquido chamado baía de Luanda, bilhete postal que toda a vida ficou dentro dos olhos da miúda que eu fui.

Raramente se ia à praia, tenho três ou quatro idas dentro da minha memória. Além delas, um acampamento num lugar mágico, nele corria um rio pequenino para o mar e os caniços que cresciam lá eram tão grandes e altos que os caranguejos, também enormes, se passeavam vagorosamente por eles, como equilibristas de circo. Ir à praia e mergulhar no mar não era coisa que o meu pai pudesse acarinhar para os filhos e muito menos gastar nisso o seu tempo, preferia o sol na sombra de livros nas esplanadas e disso a infância está cheia, de longos tempos de observação do mundo nas esplanadas e no interior dos cafés, onde as ventoinhas de tecto giravam incansavelmente a tentar afastar o calor imenso das tardes.

Ontem com as minhas crianças, embora chamar-lhes assim já me custe (de tão crescidas que estão), fui elogiada por ser a única adulta da família que entra na água com elas, isto é, bem depois delas que entram mal poisam o pé na areia. Não pude deixar de pensar nessas infâncias de sequeiro que todos tivemos, mais estranhas ainda pela proximidade do mar que tínhamos, mas era difícil explicar-lhes isso, como as infâncias líquidas delas são tão diferentes das nossas.

Investi depois nesse prazer que a infância não me deu e um banho de mar desperta na minha pele um efeito de contentamento só igual ao de um grande e apertado abraço.
~CC~

sexta-feira, julho 25, 2008

Notas da Viagem a Itália (III)

Cartaz do seminário numa das paredes do hotel
~CC~

Notas da Viagem a Itália (II)

Arezzo, 19 de Julho, 8h da manhã


quinta-feira, julho 24, 2008

Notas da viagem a Itália (I)

Há pessoas que viajam com uma pequena mochila e desconhecem por isso as longas esperas nos tapetes de bagagem, há quem não corra atrás da "first bag", sempre admirei estes quase passáros, muito embora pareçam demasiado desligados da carga simbólica que os objectos têm. Ora dentro das nossas roupas estão os nossos cheiros e os nossos livros transportam as marcas dos nossos dedos, e disso não posso desligar-me.

Outras pessoas impressionam pelas malas pesadas e enormes que levam para três ou quatro dias como se a sua estabilidade dependesse do número de coisas que conseguem trazer de casa. Nunca irão nem vestir nem usar metade dos objectos que transportam e o peso excessivo atrapalha-os nas escadas rolantes e nos longos corredores dos aeroportos. Acreditam demasiado nos objectos e dependem deles.

Procurei levar para quatro dias uma mala pequena e flexível e comigo apenas uma pequena mochila com três ou quatro objectos, nos quais não se incluia nem um de higiene pessoal, nem sequer uma escova de cabelo. Isso não seria problemático se minha mala tivesse chegado a Itália, mas ela ficou no aeroporto em Lisboa. Acresce que nesse mesmo dia tinha que viajar para 300 Km a norte de Roma, para Arezzo e depois Cortona e não pude esperar pelo voo seguinte. Pedi que a deixassem em Lisboa, mas responderam que o procedimento era o de a enviar no avião seguinte, a inflexibilidade da burocracia é ainda uma coisa que me espanta. A mala passou assim três dias em Roma sem mim e eu passei os mesmos sem ela.

Na primeira noite não tinha nada mesmo a não ser a roupa que trazia vestida e o hotel era tão fraco que em nada ajudou, experimentei o que é um banho só a água, um cabelo molhado completamente despenteado e uma roupa interior mal seca por ter sido lavada na noite anterior.

Ao início fiquei perdida sem nada de meu e sem ter nada para substituir. Depois deram-me meia hora para comprar o mais urgente, mais exactamente das 9h às 9h30 porque iríamos viajar para o seminário e esse era longe de tudo. Comprei quase nada, as minhas coisas durante todo esse tempo cabiam na minha pequena mochila. E depois da falta do primeiro dia, deixei de pensar nelas e percebi que era mais livre do que eu própria pensava e que precisava de muito pouco. É claro que quando as minhas colegas mudavam a segunda vez de roupa no dia, descendo vaporosas para o jantar, sentia uma certa inquietação, acompanhada do sentimento de ser a mais feia e mal vestida da sala, mas depois de cinco minutos de conversa e das primeiras garfadas de pasta e de chianti, só me dava uma imensa vontade de rir.

Depois fui buscar a mala no dia da partida para Lisboa, mas como estava retida nas chegadas, saí com ela como se naquele momento tivesse chegado a Roma. Cheguei duas vezes a Roma numa só ida. Mas Roma lida ao contrário é outra coisa, uma coisa boa a que se pode chegar mais do que uma vez, e então pensei que era esse o sentido e voltei feliz.
~CC~

quarta-feira, julho 23, 2008

Uma flor para a ~CC~


Pediu-me, esta tarde, que a ajudasse a por um céu na Ardósia!

Apressado, como sempre (deveríamos ter muito mais tempo para os amigos como a ~CC~), disse que não tinha tempo, mas que poderia tentar mais logo em casa, se me enviasse os dados por e-mail!

Mandou, e tentei...

Fui avisando que com os dados poderia também publicar em seu nome e ela, ingénua, confiou em mim e disse que sim, que podia publicar uma mensagem...

Agora sinto-me como um ladrão em casa alheia, que pode meter no saco qualquer objecto de que goste...

Apetece-me levar os textos todos lá para onde ninguém os lê, mas tenho a sorte de já ter por lá alguns que foram dados e não roubados e é desses que eu mais gosto!

Procurei no fundo do saco e encontrei um flor para deixar aqui nesta Ardósia dos textos lindos juntamente com um beijo para a dona antes de fechar a porta deste lugar cheio de magia e palavras lindas que a ~CC~ agrupa como mais ninguém.

João

terça-feira, julho 22, 2008

Mulheres livres (II)

Esta mulher esteve presa muito tempo mas creio que sempre foi livre. E agora, mesmo livre, nunca o estará totalmente, está no momento presa pela esquerda e pela direita e todo o espaço que tem parece reduzir-se, oprimido entre mundos cuja separação feita desta forma já não faz sentido. Ela, no entanto, parece querer conquistar agora uma outra liberdade, a de poder ser quem é.

Para a esquerda, Ingrid é rica e burguesa e excessivamente católica, para além de não mostrar grandes marcas do seu sofrimento em cativeiro, o que até torna possível pensar que terá sido beneficiada entre os prisioneiros. Mesmo a esquerda que aplaudiu a sua libertação começou a bater palmas mais silenciosamente quando a viu junto do presidente francês, não só porque ele é considerado de direita como porque uma mulher como ela não deveria mostrar-se junto a políticos, junto ao poder (mesmo que eles tenham sido importantes na sua libertação). O poder é, nesta visão do mundo, uma coisa contaminada em si mesma.

Para a direita Ingrid não é confiável, mal agradeceu a sua libertação ao presidente da Colombia foi logo dizendo que isso não a tornava refém da sua estratégia política. Para a direita, ela pode bem ter cooperado com as FARC em algum momento, para além disso é uma mulher que se casou duas vezes e que não parece presa neste seu último casamento, anda por todo o lado sem o marido. É uma católica da linha dos movimentos de libertação da América Latina e estes são tudo menos bem vistos no Ocidente Católico de hoje.

Acresce que para os colombianos que não gostam dela, ela é francesa. Já para os franceses que não gostam dela, ela é colombiana. Dizem que fala e se mostra demais, que conta histórias, que dorme em hoteis caros. Tudo serve para a denegrir e o modo como as notícias são fabricadas é demonstrativo, veja-se como os títulos são sugestivos: Ingrid Betancourt está de férias com os filhos nas Seychelles. Há gente que nunca vai ler o resto desta notícia, ficará sem saber que ela viveu lá durante um período e que foi aí que filha nasceu, que foi a convite do presidente das Seychelles, a maior parte das pessoas pensará que Ingrid já foi para umas férias milionárias.

Ela é inclassificável e disso eu gosto, não sei dizer se ela é uma mulher livre, mas que parece, isso parece. E isto é o que eu penso hoje, não a tenho obviamente sob vigilância, até porque vigiada ela já foi demais, mas estarei aberta a ver outros lados desta mulher, se eles me parecerem passíveis de crítica, mas até agora não vi.
~CC~

sexta-feira, julho 18, 2008

Agenda(s)

Em agenda ficam as memórias com e sem voz (II) e as mulheres livres (II) e outras notas soltas que trarei da viagem que inicio hoje. Daqui a nada já estarei no aeroporto de Roma e daí até à pequena vila a 100km de Florença que acolherá educadores de vários países que querem formar uma rede internacional para educar para uma Cidadania Global. Segundo sei, virá gente de Malta e da Palestina e de países outros que não apenas os dos circuitos dos países do poder. Não vos sei explicar porque é que nos acolhemos em Itália, agora que os seus rumos parecem tão arredios do acolhimento da multiculturalidade. Mas há muito aprendi que os povos não se espelham completamente nos seus governos, que há muitas verdades dentro de uma só.

Em agenda também a arrumação das ligações virtuais a outros amigos, desde o JR Marto à Clorinda que mudaram de casa e a alguns outros que têm chegado recentemente. Que me perdoem esta desarrumação permanente, é o tempo sempre a escassear.

Cidadania Global o que é? Como a definir? Servirá para alguma coisa lançar conceitos novos num mundo tão saturado deles? E redes, valerá a pena mais uma? Vou escutar, uma das minhas tarefas permanentes na agenda.
~CC~

quarta-feira, julho 16, 2008

Mulheres livres (I)

Elas segredavam uma para a outra: já deve ter outro namorado. Questionei-as directamente: de quem falam vocês, é de mim? Que não, que não era. Resolvi brincar, sabendo a indignação que ia suscitar: então é de uma de vós?! Se tivesse pensado duas vezes não diria nada para não ter de ouvir o que se seguiu.

Elas eram duas mulheres bem casadas, que amavam os maridos e que esperavam ficar com eles para sempre. Tinham filhos lindos, encomendados a Deus menino e menina e Deus ouviu-as e brindou-as com um casal. Estas mulheres nem sequer eram afectadas ou especialmente religiosas, mulheres normais de classe média e profissão liberal, mas com o mundo do tamanho do seu quintal. A felicidade em família e a profissão conquistada, os trunfos apresentados, as grandes conquistas.

Está tudo certo mas há qualquer coisa que lhes falta em chama, em viagem, em experiência. São mulheres lisas, direitas, feitas à medida. E custa-lhes compreender as outras, mesmo não querendo, escapa-lhes aqui e ali um comentário de gozo, um olhar de soslaio, o traçar de uma fronteira entre elas e as outras. Elas são as mulheres casadas uma só vez, as da escolha certa, as do ideal do amor companheiro, elas não falharam. Elas não são as namoradas nem as amantes, elas são as mulheres, as esposas, as companheiras.

Por um momento oiço outra vez a minha filha a dizer "eu disse à professora que quem me tinha arranjado aqueles folhetos tinha sido o namorado da minha mãe, e a professora muito atrapalhada corrigiu: pois, um familiar".

É este ainda o mundo em que vivemos, um mundo em que as mães ainda não podem ou não devem ter namorados.
~CC~

terça-feira, julho 15, 2008

Memórias com voz (I)

Há certos naufrágios que o Verão nos traz à memória, lembro os teus olhos como navios perdidos, como bandeiras de aceno cujo código não sabia interpretar, como um adeus que eu ainda não sabia ser para sempre. Nunca compreendi os teus olhos nem as tuas palavras, e não tenho a fotografia deles, por isso pinto-os feitos um céu de fim de tarde de Junho, um céu limpo cruzado pelo voo das andorinhas. E arrumo esses teus olhos belos na gaveta dos amores perdidos.
~CC~

Memórias sem voz (I)



A senhora branca e loira, de olhos claros, deixou à guarda do rapaz africano o seu bebé pequenino para ir tirar o curso de datilografia, uma possível futura ocupação que não deixaria envergonhado o seu marido, já um graduado e aspirante a comissário de polícia. A menina, igualmente branca e loira, tomou os seus biberons da tarde nos braços negros e no colo do rapaz, um par improvável para uma Angola dos anos 60, mesmo no limiar da eclosão dos movimentos de libertação. O que bebeu com esse leite e com esse colo não está na sua memória, nos seus sonhos ela bebeu aí o gosto imenso pela vastidão das paisagens ou pelo que também poderia chamar liberdade.


~CC~

segunda-feira, julho 14, 2008

Ficar ao pé do mar

Parece uma ideia mórbida esta de pensar na nossa morte. Há pessoas que durante toda a vida nunca pensam nela. Já a imaginei como a liberdade mais plena, mas agora só a associo a escuridão e portanto à prisão imensa do nada. Outros pensam insistentemente na sua morte, deixando recomendações claras, e entre esses, estão sobretudo aqueles que querem as suas cinzas no rio ou no mar. É como se eles fossem uma tribo, um conjunto de gente que só se irá encontrar entre a água sal ou entre a água doce, quando deles restar apenas a pequena partícula do eu que foram. Não me conto entre eles.

Até ontem não conhecia ninguém que tivesse para a sua última morada o mesmo desejo que eu. Mas se ela apareceu tão diferente de mim dentro do filme*, quando pediu agonizante ao seu amor que levasse o seu corpo para o pequeno cemitério com vista para o mar, não quis acreditar que aquelas suas palavras eram iguais às que eu própria já tinha pronunciado. Quero morrer muito velha, mas quero uma vista linda para um mar azul. E não é por engano que lhe acrescento azul, mas sim porque há mar de muitas outras cores, eu própria já estive dias e dias junto a um pedaço de tom castanho.

É claro que também serei infinita pequena partícula de nada, mas ainda assim perto do mar.
~CC~

* Paciente Inglês, comprado para revêr após todos estes anos e a preços tão módicos no supermercado que não queria acreditar que a fita fosse mesmo feita de imagens-movimento.

quinta-feira, julho 10, 2008

Nascer

A minha rua em Luanda, o ano passado, afinal tantos anos depois.

Nascemos muitas vezes ao longo da vida, também nos sentimos morrer por vezes, no tormento de uma solidão que nessa altura é maior que todas as outras. E nascemos a cada encontro, como hoje, na mesa do ninguém lê*, em que se sentou connosco um poeta, todo ele construido da simplicidade com que me parece amar as palavras. É bom nascer mais um bocadinho, porque cada outro com que o encontro se tece, é sempre também mais um lado qualquer de nós a descobrir o mundo.

Mas há há um lugar agarrado a nós em que nascer foi a primeira inscrição da geografia sobre o nosso corpo, marcas que os nossos dedos não conseguem tactear e que moram entre a derme e a epiderme. Penso às vezes nesse nascimento das pessoas com as quais me cruzei já adultas, penso na infância delas e nas crianças que foram e espreito-as dentro dos olhos, como se pudesse voltar com elas ao lugar onde nasceram. E às vezes volto.
~CC~

* Girafa cor de rosa e Deep, senhoras da Geografia do Norte, ficaram presas nos seus afazeres. Sabemos que não era grande dia para a Sardinhada, mas foi assim. Um dia poderemos talvez sentar-nos convosco num outro lugar, certas que nesse encontro, nascer será também a palavra adequada para referir este modo como nos movimentamos uns com os outros, uns para os outros.

quarta-feira, julho 09, 2008

Verão que (me) tardas



Entre tantos dias de ritmo intenso este chega hoje com um certo sabor a festa, como se de repente entre todos os sabores ganhasse o vermelho adocicado das cerejas. Chegaram ao fim os dias de viagem de estágio em estágio, vividos entre momentos de grande alegria e preocupação intensa. Pequenos pedaços foram quase tudo: a peça representada pelos jovens com défices cognitivos profundos da APPACDM; os três idosos vestidos a rigor e brilho que vieram cantar letras da sua autoria, a poesia popular a sair decorada sem custo dos lábios das idosas a quem a vida (quase só) chega através do serviço de apoio domiciliário; as despedidas que muitos fizeram na sinceridade de uma saudade que já começa.


Este Verão não me parece ser, nunca a escola esteve assim frenética em Julho, nem o meu coração fervente de emoções e desafios balançou e bateu tão manso de cansaço que quase não o consigo ouvir. Nunca as letras pararam tão devagar nos dedos e os romances do ano esperaram tanto para ser lidos. Nunca, como este ano, deixei de renovar o guarda roupa com uma nova cor ou feitio da estação, nem de cortar o cabelo um pouco mais curto.


Este Verão não parece ser, o mundo estremece entre a libertação de Ingrid e o preço do barril de petróleo, enviam-se mandatos de captura internacional, encerram-se processos judiciais de grande aparato, os deputados parecem não querer largar o debate sobre o estado da nação, as pessoas correm ainda pelas cidades.


Só o chapéu de sol laranja que abriste para dar sombra ao quintal parece ser um sinal de que é Verão. E é por ele que me vou guiando, na esperança de ainda conseguir apanhar as noites de calor e lua deslumbrante.

~CC~