domingo, janeiro 19, 2014

As vidas de E mãe e de E filha



Linda ela era, tal como as outras irmãs. O azul dos olhos de uma limpidez absoluta, sem névoa de maldade. Esteve, tal como as irmãs, muito doente. Uma morreu, as outras quatro viveram. As sequelas, contudo, deixaram-lhe no cérebro uma zona obscura, perdeu, entre outras faculdades, a capacidade de distinguir o bem e o mal e de saber o que era ou não conveniente para a sociedade, de perceber o que estava sujo e limpo. Envergonhava os pais honestos e pobres que não sabiam o que lhe fazer e como pretendentes não lhe faltavam, casaram-na cedo. Pariu filhos atrás de filhos, porque o marido, sem lesão cerebral que se lhe conhecesse era analfabeto não só de letras como de afectos. Dizia de si própria que era inválida e por isso tinha que ter um subsídio de subsistência mas não tinha a mínima consciência do que dizia. Não sabia sorrir mas ria com aquele riso aberto e incontinente da loucura. A comunidade que antes tolerava os loucos começou a fechar-se sobre si própria, não a tolerando nem a ela, nem aos filhos infestados de piolhos. Praticamente ninguém da família em franca ascensão social a assumia como membro da mesma e esqueceram-se dela sem grande remorso. 

O dia em que a levaram para o lar talvez tenha sido porventura um dos mais felizes da vida dela pois deixou de ter que se preocupar em ter comida. Viveu lá por quase vinte anos até ao dia de hoje, visitada por pouca gente, ainda assim uma das filhas, uma ou duas das irmãs. É filha de um Portugal miserável que não sabia recuperar os mais frágeis e os desprezava se eram pobres e doentes. Talvez não deva, contudo, falar deste país no passado. A vida de E atravessa este século numa redoma de tristeza absoluta, dada como irrecuperável quando nenhum diagnóstico o mostrou com clareza. Ter um défice mental define uma condição, se lhe associarmos pobreza, é certa a exclusão.

Uma das suas filhas herdou-lhe o nome e sem aparente transmissão genética parte da loucura. Sem que ninguém fizesse nada para a proteger, seguiu mal fez dezoito anos um homem mais velho que a prometeu levar para Espanha e dar-lhe boa vida. Acabou morta num descampado do Norte. Vi a foto dela no correio da manhã e dificilmente a diria a prima com quem ainda brinquei à apanhada.

Não são as vidas que passam nos programas da tarde na TV porque ninguém quer lá uma loura de olhos cor de céu com sol, a rir-se perdidamente, aí desfilam-se as tragédias que se conseguem domesticar, se possível para uma ajuda que reconforte. As vidas de E mãe e de E filha são apenas tragédias anónimas.

~CC~



terça-feira, novembro 12, 2013

A amante perfeita



Uma amante perfeita era como Lola era. Até o nome dela era o de uma amante perfeita. Os encontros eram regulares e sem falhas, mas se ele falhava, ela não dramatizava, ficava apenas para outro dia. Nunca, em todos aqueles anos, falara da sua mulher, muito menos pedira que a deixasse. Deixava-o falar dos filhos e ouvia-o mas não mostrara vontade de os conhecer. Não lhe pedia presença em acontecimentos públicos, tinha muitas amigas com quem ir. Lola odiava o Natal e as festas de aniversário, por isso nunca exigiria a sua presença em tais eventos, normalmente ia viajar. Lola nunca enviava sms, quanto muito respondia aos seus. Em tudo parecia uma mulher de bem com a vida.

Tudo era bom e perfeito, um triângulo sem mácula, pelo menos era o que ele pensava. Até um dia. E não fora ela, fora ele. Tanta perfeição tinha criado nele a dúvida. Seria o único? Ela amava-o? Os seus amigos e colegas diziam que todas as mulheres amam com posse e ciúme, por isso ela não o amava. Ele, na realidade, não lhe fazia falta. Ele era uma espécie de refeição, uma vez degustada, estava terminada. Ele era um adorno, ficava bem com o resto da roupa, mas não era essencial. A dúvida minou-o e enraiveceu-se com a sua própria dúvida. Pensou pedir-lhe justificações, persegui-la, fazer-lhe perguntas. Não tinha, contudo, perdido toda a decência, olhava com pena para a forma como se estava a tornar ridículo. Então explicou-lhe tudo numa única frase de despedida: ele não era homem para uma amante perfeita.

~CC~

segunda-feira, novembro 04, 2013

Palavras malditas



Todos os dias da sua vida ele desejara uma mulher que amasse as palavras. A sua vida fazia-se no interior dos livros, recomendando-os, emprestando-os, trazendo as pessoas até eles. Maria escrevia ainda à mão, como quase ninguém fazia. Durante os seus quarenta anos de vida, ele conhecera mulheres mas não amara. E também não esperava amar. Não lhe interessava particularmente o amor, preferia os retratos dele em matizes tão diversificadas espalhadas no papel dos seus amados escritores.
O primeiro ano do seu namoro fora apenas uma sucessão de olhares longamente trocados, ele sobretudo interessado na mulher que escrevia, ela no homem que sabia de livros.
No segundo ano ela escreveu-lhe as cartas. Tinham sido doze, à moda antiga, uma por uma deixadas em mão na secretária dele, assinadas apenas com o seu primeiro nome. Não eram longas, cerca de meia página. Não eram declarações de amor, eram declinações de sentimentos experimentados ao longo de um mês, as palavras certas, contidas, mas belas. Na última ela terminava dizendo que ele era o homem por quem tinha esperado sempre, um homem que amava as palavras como ela.
Estavam juntos há cerca de sete anos. Anos de total silêncio da palavras escrita. Abriu as 12 cartas que tinha recebido dela. Uma por mês durante um ano. Ela estava ali todos os dias ao seu lado, nenhuma palavras lhe escrevia. Ele sonhava que um dia chegava a casa e ela estava sentada a escrever. Ele ia ao correio e pensava ter uma carta dela. Ele vasculhava a secretária à procura de um bilhete dela. Por vezes suspeitava que esta não era a outra, mas apenas uma sombra dela. Lembrava-se da fonte da quinta do avô que tanto deitara água durante a sua infância e secara um dia sem grande explicação.
Ele via nas mais pequenas coisas do quotidiano que a mulher o amava. Mas as palavras escritas, como elas lhe faltavam. Nada lia dela, nada via dela, apenas os diálogos trazidos pelo quotidiano. Ele esperava um bilhete, nem que dissesse apenas: volto já.
~CC~

domingo, setembro 08, 2013

Lírio roxo





Lília sempre ouvira dizer que o seu nome tinha parentesco com uma flor. Crescendo no meio das vinhas e dos meloais ela não sabia quase nada sobre fragrâncias, apenas se lembrava de enjoar a cada Outono com o cheiro estonteante do mosto. Era apenas mais uma rapariga a crescer num lugar onde a partir dos doze anos os homens começavam a olhar para elas, rindo e comentando entre si. Lília fugia de tudo e encostava-se a um canto do baile para se tornar invisível. Doiam-lhe todas as partes do corpo que estavam a crescer de forma desordenada e incómoda. Como todas as moças que crescem sem ser as mais lindas da rua, o seu sofrimento era proporcional à ignorância que lhe votava o moço mais galante da vila, o mais belo, o melhor dançarino, o mais desejado. 

Lília espreitava-o temerosa de que ele a notasse, encantada pelo brilho daqueles olhos tão tremendamente negros e brilhantes. Ele mudava de parceira em parceira, dançando com todas um bocadinho, a fim de se manter intensamente adorado. Não se lhe conhecia namorada, a todas dizia que era cedo demais e que ainda estava à procura da sua bela. 

Também chegou a vez dela mas ela não quis dançar. Então ele convidou-a para um passeio à luz de uma noite escura, sem lua. E ela foi. Nunca se arrependeu de ter ido mesmo depois dele nunca mais a ter olhado, nunca mais lhe ter dirigido a palavra. O desgosto foi uma coisa calada, chorada para dentro. 

Depois daquela noite em que ela se deixou morrer corroída pelo veneno que tirou da adega do pai, muita coisa se disse. Poucas coisas certas provavelmente. O que chegou como uma certeza até hoje foi que ela saiu para a rua para a morrer, vomitando as entranhas no empedrado. Mas o seu vómito era roxo e não tinha mau cheiro, parecia até exalar um odor a flor. Se calhar esperava uma menina, quem sabe teria brilhantes olhos negros.

~CC~

PS. Homenagem primeira aos jantares da tua terra, junto dos teus pais. Contam-se contos, eu acrescento os pontos :)





terça-feira, maio 07, 2013

Velhos deste país



Nascido entre os mares de pedra deste país, assistiu à vinda da liberdade, tentando vê-la no modo como os rebanhos se deslocavam mas eles permaneceram mudos e absolutamente iguais na sua busca de erva verde e de água boa. O que ele sabe da liberdade é que ela lhe levou os filhos para longe, o rapaz que tinha ido estudar para padre era já sabido mas a sua menina, essa nunca pensara que se pudesse afastar. Ficara só com a sua mulher e o seu rebanho, conformado com a vinda dos filhos a casa duas vezes por ano.
 
Com o tempo, apenas teve mais e mais dificuldade em vender os seus queijos e a sua manteiga, espartilhado entre regras que não podia cumprir. Tudo tinha que ter agora uma marca e um desenho que lhe diziam ser um logotipo. Não conseguia perceber a utilidade dessas coisas no raio dos 100 km onde podia vender os seus produtos caseiros que desde sempre eram os produtos do senhor Manuel da casa do ribeiro.
 
 
Dobrou o século com a tristeza urdida entre si, as ovelhas e a mulher cada vez mais calada. Quando dera conta ela já não era apenas uma mulher calada mas também uma mulher que dizia coisas sem sentido. Desconfiou de alguma maleita e o médico confirmou. Não o deixaram levá-la para casa argumentando que ela não podia ficar sozinha porque o mais certo era deitar fogo à casa ou deixar-se ir na ribeira.
 
As ovelhas essas iam comendo a sua tristeza e solidão e dando cada vez menos leite. Tinha dias em que só comia pão, queijo e umas laranjas. Não queria tirar o pouco que tinha no banco. Todas as semanas ao Domingo ia ver a mulher que tinha sido a mãe dos seus filhos e agora o desconhecia.
 
Na volta de cada Domingo pensava sempre no mesmo, no seu fim, nos olhos que se podiam fechar para sempre e com eles a dor. É verdade que pensava na tristeza que ia causar a filhos e netos, mas sabia que com o tempo isso lhes passaria e ainda assim poupava-lhes o trabalho de cuidar dele.
 
Se o pensou, assim o fez e deu um beijo muito doce naquele Domingo à sua mulher, fez umas festas às ovelhas, olhou pela última vez a névoa mágica daqueles montes e perguntou-se se a sua vida tinha valido a pena.
 
~CC~
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, abril 10, 2013

Do Sebastião



Quando me abeirei desta terra onde hoje moro sabia muito pouco dela. Sabia, contudo, quem era Sebastião da Gama e como ele tinha cantado a Arrábida. Foi ele o meu passaporte, ainda hoje é. Hoje é dia dele embora conste por aí que é dia dos irmãos.
~CC~

POESIA

Lá fora canta
um rouxinol
canta de alegre
como se o sol
não se pusesse
como se tantas
das nossas horas
não fossem tristes

O rouxinol
canta lá fora

Rouxinolzinho!
canta
eu fico ouvindo
E que eu não me esqueça
de reparar
que hoje não canto
nem para chorar.

Sebastião da Gama

quinta-feira, abril 04, 2013

Dessa luta





Ela corria todas os finais de tarde para afugentar os seus fantasmas, achava que se andasse suficientemente depressa eles ficariam parados em alguma esquina, encontrando outra alma para atormentar. Quando parava no jardim, exausta, uma tontura longa tomava conta de tudo e parecia estar liberta, limpa. Na esquina seguinte lá estavam, prontos a mostrar-lhe que a memória da dor estaria sempre presente, mesmo quando a dor já não existia mais.
 
Depois foi descobrindo que a vitória não passava por eliminá-los mas sim por conversar com eles, por dominá-los pela convicção que queria ser feliz, nada os assustava mais do que isso. Dar-lhes luta conveniente.
 
~CC~
 
 
 
 
 

domingo, março 31, 2013

Uma canção para o seu regresso



Uma vida inteira viajando enquanto dormia em pleno Alentejo.
 
Laurinda estava muito perto da amiga quando ela desmaiou repentinamente, lembra-se como se fosse hoje. Atribuiu-se tudo ao calor excessivo daquele Verão, muito antes de chegar este tempo outro, nesse elas ainda trabalhavam com o capataz por perto, vigiando de perto os minutos em que se podiam ir aliviar ao campo ou beber uma pinga de água. É verdade que Jacinta nunca fora uma mulher muito forte, tinha amiúde afrontamentos, calores e desmaios. Fora ao médico ver do coração sem que se tivesse descoberto alguma coisa.
 
A diferença naquela tarde quente tinha sido esse desmaio sem fim, esses anos a envelhecer deitada numa cama, tal qual uma Bela Adormecida. Diziam que era uma comoção, um mal sem volta, uma doença sem nome. Jacinta tinha desmaiado junto à eira e se uns diziam que o mal tinha sido a queda, outros que esse mal vinha já de longe, tantas tinham sido as vezes que tinham tido que encobrir o seu mal estar.
 
Onde vivia na realidade Jacinta dormindo na sua caminha de flores em pleno Alentejo? O hospital tinha-a encaminhado para casa dos pais pois não podia fazer mais nada. Na sua casa branca, em plena vila, ela era já pertença da comunidade. Para os mais pequenos era a Bela Adormecida, para os mais velhos tinha tido um encantamento, para os adultos ocupados ela era apenas uma pobre coitada à espera de morrer. Tinham aprendido a alimentá-la, a lavá-la, a cuidar dela, a tê-la como se fosse uma santa num altar, um ícone. Laurinda ia vê-la e contar-lhe a sua vida pelo menos uma vez por semana. Enquanto ela dormia contara-lhe do casamento, dos filhos, das mortes que tinham vindo também habitar a sua vida, da tristeza daquele aborto que tivera que fazer no final do terceiro menino.
 
A amizade delas tinha durado assim uma vida, era sólida e forte. Por isso ninguém estranhou por ter sido junto de Laurinda que Jacinta acordou.  Na verdade era uma grande alegria o seu regresso antes de fazer cinquenta anos, sem qualquer maleita maior, apenas envelhecida desse longo sono. Nesse dia Laurinda, mal refeita da surpresa, tinha querido saber por onde andara Jacinta enquanto dormia. Jacinta não hesitou na resposta: eu venho da Ilha dos Vidros!
 
Ninguém percebeu onde seria essa ilha, certo é que a canção nasceu. E agora cantam-na as duas.
 
~CC~
 
 
 Nota 1. Jacinta (de blusa azul no vídeo), como poderão adivinhar, tem ainda esse olhar vindo de muito longe.
Nota 2. A história é obviamente fictícia e os nomes não são os delas.
 
 
 
 
 
 
 

Aqui de novo para contar histórias



Queridos amigos

Estarei aqui outra vez, apenas para contar pequenas (ou grandes) histórias. Mantenho aberta a minha Rua da Índia para as urgências do dizer quotidiano.

Tenho saudades da minha ardósia azul, parte tão grande de mim.

Volto por mim, volto por ti. Volto para mim.

~CC~


sexta-feira, dezembro 28, 2012

Outro ano, outra morada


Queridos amigos
Criei uma morada nova para viver em 2013. Não a posso enviar a todos vós que me habituei a ler e a ver aqui porque não consigo aceder aos vossos e.mails pelo perfil. Escrevam para mim que envio o endereço.
Gosto de anos ímpares.
Até sempre
~CC~

domingo, dezembro 09, 2012

Vou de viagem



Meus queridos leitores (mesmo que sejam apenas meia dúzia)...
 
Minha querida ardósia...
 
Vou de viagem, não uma viagem como as outras, daquelas de buscar lugares fora de nós. Vou partir por uns tempos ao meu centro de gravidade onde os mares são ora serenos, ora muito agitados. Já me salvei a nado de bem pior.
 
Os tempos são difíceis e é preciso dar toda a atenção a quem se senta connosco para tomar um café e nos olha nos olhos, coisa que não se pode fazer por aqui, coisa que muita gente que nos rodeia (e até se diz amigo/a) não faz. Se quiserem conversar, pois prometo responder à caixa de comentários. Se quiserem ficar por aí, qualquer dia os dedos voltarão a querer riscar com giz. Na verdade os blogues não são bons nem maus e tenho afecto pela minha ardósia, mas não é do que preciso agora.
 
Façam o favor de sobreviver, de resistir, de lutar.
 
 
~CC~

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Da futilidade dos dias



Pensamos que a marca que deixamos nos lugares é um traço forte que demorará a ser apagado, mas é um mero engano, quando damos conta já não é mais que fumo. Tudo é hoje de uma futilidade sem limites, até os sentimentos são de colocar e tirar, com a rapidez julgada necessária para não sofrer.

Ou ainda
 http://amoreoutrosdesastres.blogspot.pt/2012/12/salvos-pelo-amor.html

~CC~

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Essas mulheres...



Às vezes espreito a novela Gabriela (que já ninguém chama cravo e canela), confesso que apenas pela curiosidade de ver quem é agora quem. Da primeira vez que passou em Portugal a minha família não possuia ainda Televisão e como se tratava de um bairro suburbano, não se via nos cafés (aliás nem havia cafés) e eu fingia perceber aquilo de que toda a gente falava. Aprendi a rir no sítio certo, a ficar emocionada, a fazer perguntas adequadas - tudo sem ter visto um único episódio. Da segunda vez tratou-se da repetição da primeira e vi já sem aquela euforia colectiva que rodeou a primeira exibição.
 
As mulheres são agora todas muito mais bonitas, excepto a protagonista. Esta Malvina, por exemplo, tem uma beleza quase perfeita, contudo, nem de perto nem de longe a personagem se impõe como se impunha a outra. Diria que lhes falta personalidade, capacidade de nos convencer, de nos envolver, de nos mobilizar para a sua causa. São só bonitas.
 
Isto transportou-me para o anfiteatro cheio de estudantes no dia do Teatro do Oprimido. Eles perguntaram aos estudantes quem eram as mulheres que admiravam. Choveram estrelas da música e do cinema que estão no topo. Depois um estudante disse que quando pensou na resposta, não lhe tinha surgido ninguém que tinha sido referido. Todos quiseram saber em quem tinha ele pensado. Ele disse um pouco envergonhado mas também de modo assertivo: eu pensei na minha mãe! E depois acrescentou: pensei no sorriso dela...
 
~CC~
 

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Bem dito!



Poderia escrever mais ou menos o mesmo que ele escreve, contando a minha versão, muito semelhante. Mas não é preciso, ele diz tão bem.

~CC~

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Coisas difíceis (III)



Já tinha ouvido nas notícias televisivas que as urgências dos hospitais tinham deixado de ser como o metro em hora de ponta. Não, pensei, contudo, encontrar a sala completamente vazia, não obstante o frio e as 4 da manhã serem obviamente desencorajadores. Lembrava à minha filha o quanto ela  tinha frequentado as urgências quando viemos morar para esta cidade e como a cada Inverno a única maneira de parar a tosse irritativa, interrupta e assutadora pela noite fora era lá ir, o aerossol e o ventilan foram companheiros muitas vezes. Nunca se demorava menos do que duas a três horas e lembro-me muito bem de sair já de manhã.
 
Ontem até era estranho o vazio e o silêncio, não obstante a meia hora fazer parte das absurdas rotinas burocráticas que até praticam triagem quando não há mais ninguém, pensava que ela servia para distinguir os prioritários dos não prioritários. O padrão médico permanece igual, uma quase absoluta indiferença ao doente, receita rotineira entre dois bocejos. Se não se entra a morrer, não há atenção. Só as enfermeiras vão explicando alguma coisa do que o médico receita e do porquê de o fazer, deviam inverter os papéis, já que uns explicam e outros não o fazem.
 
A explicação para o vazio veio logo a seguir: Dezassete euros e cinquenta por aquela meia hora num hospital público (com sistema de saúde ADSE). Somem mais vinte e um euros de medicamentos. Não admira que os mais velhos já não venham e os mais novos sejam tratados a brufen dado na farmácia. O mais engraçado é que no hospital particular que tem contrato com a ADSE se paga quatro euros por consulta. Alguma coisa vai mail no reino da Dinamarca.
 
~CC~
 
 
 

domingo, dezembro 02, 2012

Da vida de A. (parte II)



Sabemos como os tratamentos são longos e como o vazio é uma coisa que demora a desaparecer. Por isso A voltou muitas vezes, em algumas delas falou mesmo muito pouco e noutras avançou delirante, contando sonhos nocturnos invariavelmente tristes.
 
M iniciou um novo ciclo de questões sobre as coisas que lhe causavam uma sensação de conforto. A não teve tantas dificuldades como antes: um chá quente, um vinho tinto bom, uma lareira acesa, a visão do mar...M notou que não havia pessoas entre os motivos de conforto e pediu-lhe que as trouxesse. Foi um pouco mais difícil, a mãe não tinha sido especialmente carinhosa, o pai tinha-os deixado muito cedo, a primeira mulher era tão tremendamente volátil que a euforia dela, alternada com momentos de profunda tristeza, o tinham deixado sem vontade de emoção nenhuma. A filha era a única hipótese de conforto, umas mãos pequeninas entrelaçadas nas suas enormes, essa era única imagem de conforto que ele conseguia visualizar. Tinha, contudo, pânico de fracassar na relação com ela, de a afastar com a sua tristeza.
 
Um dia (ah, e podíamos aqui ter a valsinha como pano de fundo) A chegou diferente. Disse que queria voltar aos sonhos, disse que já sabia o que queria. Tanta certeza deixou M assustada e pensou que o melhor para conter aquela emotividade era pedir-lhe que escrevesse. Estendeu-lhe uma folha branca retirada do papel da impressora e uma caneta. Ele perguntou se não tinha antes um marcador porque queria escrever com mais força. Ela tinha um marcador azul e estendeu-lhe. Ele ficou muito tempo a desenhar as letras, ambos calados. Depois estendeu-lhe o papel, nele podia ler-se:
 
Eu quero uma mulher que me ame.
Uma mulher que me ame muito.
Uma mulher que eu possa amar também muito.
 
M leu o papel silenciosamente e sentiu uma cortina de água inconveniente a toldar-lhe os olhos e depois disso sentiu um soluço na garganta. Não sabe quanto tempo chorou enquanto A deitado no sofá nada dizia, embora não pudesse deixar de a ouvir. Depois levantou-se, tirou-lhe o papel que ela ainda segurava nas mãos e disse-lhe: estou curado, não estou? E antes que ela pudesse responder, abriu a porta e saiu.
 
(fim)
 
~CC~
 
 

sexta-feira, novembro 30, 2012

Da vida de A. (parte I)



M. era uma das poucas mulheres que no âmbito da sua prática clínica usava o velhinho sofá e se sentava na posição de Freud, sem confrontar o seu paciente com o seu olhar. Roger talvez não gostasse, em muita coisa ela era mais rogeriana do que freudiana, mas considerava que a posição semi deitada do corpo, permitia que a personalidade pudesse flutuar melhor entre o seu passado, presente e futuro. Quando lhes dizia que era preciso ir praticando o desmame dos antidepressivos até ao limite dos que lhes parecia suportável, assumia, contudo, que ao paciente cabia traçar o seu rumo, escolhendo as suas dependências, sem que elas os tolhessem em lucidez e capacidade de acção. De facto a maior parte deles quando chegavam pareciam apenas nados vivos e não pessoas, de tal modo a tristeza estava afogada em caldos postiços de medicamentos.
 
A. era apenas mais um desses homens sem vontade nenhuma de viver e sem coragem para morrer.
 
Ela tinha feito milhares de vezes o mesmo exercício com ele: diga-me coisas que quer, coisas que quer da vida. Depois tinha-lhe dado o caderninho de capa preta: leve, aponte o que se lembrar, se surgir alguma coisa durante o dia, escreva. O silêncio e a página em branco representavam o vazio que A sentia, um imenso buraco negro que o absorvia. Meses, andaram meses nisto.
 
Depois de ter perdido o medo de ser pateta, A. começou a escrever coisas que pareciam um gozo à terapeuta. Apetece-me gelado de morango. Gostava que hoje estivesse calor. Queria que a minha fiha tivesse boas notas na escola. A trivialidade dos desejos era porém um considerável avanço face ao estado depressivo. A determinada altura, porém, cansado de enumerar pratos mais ou menos agradavéis ao paladar e estados de tempo aprazíveis, A. desviou completamente o roteiro dos seus desejos. Começou a efabular: gostava de ter nascido bicho, gostava de poder voar, gostava de desaparecer dos sítios com um estalo dos dedos, gostava de viver numa tribo. A fantasia era um considerável avanço face ao vazio e à enumeração trivial mas dificilmente podia ajudar A a sentir-se melhor e a reconstruir a sua vida.
 
Por uns tempos M. decidiu parar com aquele exercício, precisava de reconstruir a estratégia para avançar claramente para trazer sonho à realidade daquele homem, sem contudo deixá-lo avançar para a efabulação improdutiva.

(continua)
 
~CC~
 
 

quinta-feira, novembro 29, 2012

Mundos que trago para perto

 
E podem aparecer!
~CC~

quarta-feira, novembro 28, 2012

Coisas boas


Esta lua vir assim visitar-nos redonda e brilhante como se pudesse dar-nos a esperança que nos parece faltar. Sempre fui aluada, ou seja transportada por todas as aragens que contêm brilho e doçura. Vozes meigas, sorrisos transparentes, mãos suaves, abraços longos. Nenhuma força ou demonstração de força me convencem, todas as demonstrações de carinho me comovem. Olá lua.
 
~CC~

terça-feira, novembro 27, 2012

Coisas difícieis (II)


Maldita gripe que me tira até o gosto de viver, coisa que faz parte do meu código genético.
Sem ele, todas as tarefas me parecem mais pesadas e sem graça. Se for ao médico ainda me receitam antidepressivos, coisa que se dá aliás a quase metade da população portuguesa com uma ligeireza assustadora.

~CC~